EXORTAÇÃO
APOSTÓLICA
FAMILIARIS CONSORTIO
DE SUA SANTIDADE
JOÃO PAULO II
AO EPISCOPADO
AO CLERO E AOS FIÉS
DE TODA A IGREJA CATÓLICA
SOBRE A FUNÇÃO
DA FAMÍLIA CRISTÃ
NO MUNDO DE HOJE
INTRODUÇÃO
A Igreja ao serviço da família
1. A FAMÍLIA nos tempos de hoje, tanto e talvez mais que
outras instituições, tem sido posta em questão
pelas amplas, profundas e rápidas transformações
da sociedade e da cultura. Muitas famílias vivem esta situação
na fidelidade àqueles valores que constituem o fundamento
do instituto familiar. Outras tornaram-se incertas e perdidas frente
a seus deveres, ou ainda mais, duvidosas e quase esquecidas do significado
último e da verdade da vida conjugal e familiar. Outras,
por fim, estão impedidas por variadas situações
de injustiça de realizarem os seus direitos fundamenta.
Consciente de que o matrimónio e a família constituem
um dos bens mais preciosos da humanidade, a Igreja quer fazer chegar
a sua voz e oferecer a sua ajuda a quem, conhecendo já o
valor do matrimónio e da família, procura vivê-lo
fielmente, a quem, incerto e ansioso, anda à procura da verdade
e a quem está impedido de viver livremente o próprio
projecto familiar. Sustentando os primeiros, iluminando os segundos
e ajudando os outros, a Igreja oferece o seu serviço a cada
homem interessado nos caminhos do matrimónio e da família.
Dirige-se particularmente aos jovens, que estão para encetar
o seu caminho para o matrimónio e para a família,
abrindo-lhes novos horizontes, ajudando-os a descobrir a beleza
e a grandeza da vocação ao amor e ao serviço
da vida.
O Sínodo de 1980 na continuidade dos Sínodos
precedentes
2. Um sinal deste profundo interesse da Igreja pela família
foi o último Sínodo dos Bispos celebrado em Roma de
26 de Setembro a 25 de Outubro de 1980. Este foi uma continuação
natural dos dois precedentes: a família cristã, de
facto, é a primeira comunidade chamada a anunciar o Evangelho
à pessoa humana em crescimento e a levá-la, através
de uma catequese e educação progressiva, à
plenitude da maturidade humana e cristã.
Mas não só. O recente Sínodo liga-se também
idealmente de alguma forma com os anteriores sobre o Sacerdócio
ministerial e sobre a justiça no mundo contemporâneo.
Na verdade, enquanto comunidade educativa, a família deve
ajudar o homem a discernir a própria vocação
e a assumir o empenho necessário para uma maior justiça,
formando-o desde o início, para relações interpessoais,
ricas de justiça e de amor.
Os Padres Sinodais, como conclução da última
Assembleia, apresentaram-me um amplo elenco de propostas, que recolhem
os frutos das reflexões desenvolvidas no curso de jornadas
de intenso trabalho, e pediram-me com voto unânime fazer-me
intérprete diante da humanidade da viva solicitude da Igreja
pela família, e de oferecer indicações para
um renovado empenhamento pastoral neste sector fundamental da vida
humana e eclesial.
Ao cumprir tal tarefa com a presente Exortação, como
uma actuação peculiar do ministério apostólico
que me foi confiado, desejo exprimir a minha gratidão a todos
os participantes no Sínodo pelo contributo precioso de doutrina
e de experiência, que puseram à minha disposição
mediante as «Propositiones», cujo texto confio ao Conselho
Pontifício para a Família, dispondo que aprofunde
o estudo a fim de valorizar cada aspecto das riquezas que contém.
O bem precioso do matrimónio e da família
3. A Igreja, iluminada pela fé, que lhe faz conhecer toda
a verdade sobre o precioso bem do matrimónio e da família
e sobre os seus significados mais profundos, sente mais uma vez
a urgência de anunciar o Evangelho, isto é, a «Boa
Nova» a todos indistintamente, em particular a todos aqueles
que são chamados ao matrimónio e para ele se preparam,
a todos os esposos e pais do mundo.
Ela está profundamente convencida de que só com o
acolhimento do Evangelho encontra realização plena
toda a esperança que o homem põe legitimamente no
matrimónio e na família.
Queridos por Deus com a própria criação, o
matrimónio e a família estão interiormente
ordenados a complementarem-se em Cristo e têm necesidade da
sua graça para serem curados das feridas do pecado e conduzidos
ao seu «princípio», isto é, ao conhecimento
pleno e à realização integral do desígnio
de Deus.
Num momento histórico em que a família é alvo
de numerosas forças que a procuram destruir ou de qualquer
modo deformar, a Igreja, sabedora de que o bem da sociedade e de
si mesma está profundamente ligado ao bem da família,
sente de modo mais vivo e veemente a sua missão de proclamar
a todos o desígnio de Deus sobre o matrimónio e sobre
a família, para lhes assegurar a plena vitalidade e promoção
humana e cristã, contribuindo assim para a renovação
da sociedade e do próprio Povo de Deus.
PRIMEIRA
PARTE
LUZES E SOMBRAS DA FAMÍLIA DE HOJE
Necessidade de conhecer a situação
4. Uma vez que o desígnio de Deus sobre o matrimónio
e sobre a família visa o homem e a mulher no concreto da
sua existência quotidiana, em determinadas situações
sociais e culturais, a Igreja, para cumprir a sua missão,
deve esforçar-se por conhecer as situações
em que o matrimónio e a família se encontram hoje.
Este conhecimento é, portanto, uma exigência imprescindível
para a obra de evangelização. É na verdade,
às famílias do nosso tempo que a Igreja deve levar
o imutável e sempre novo Evangelho de Jesus Cristo, na forma
em que as famílias se encontram envolvidas nas presentes
condições do mundo, chamadas a acolher e a viver o
projecto de Deus que lhes diz respeito. Não só, mas
os pedidos e os apelos do Espírito ressoam também
nos acontecimentos da história, e, portanto, a Igreja pode
ser guiada para uma intelecção mais profunda do inexaurível
mistério do matrimónio e da família a partir
das situações, perguntas, ansiedades e esperanças
dos jovens, dos esposos e dos pais de hoje.
Deve ainda juntar-se a isto uma reflexão ulterior de particular
importância no tempo presente. Não raramente ao homem
e à mulher de hoje, em sincera e profunda procura de uma
resposta aos graves e diários problemas da sua vida matrimonial
e familiar, são oferecidas visões e propostas mesmo
sedutoras, mas que comprometem em medida diversa a verdade e a dignidade
da pessoa humana. É uma oferta frequentemente sustentada
pela potente e capilar organização dos meios de comunicação
social, que põem subtilmente em perigo a liberdade e a capacidade
de julgar com objectividade.
Muitos, já cientes deste perigo em que se encontra a pessoa
humana, empenham-se pela verdade. A Igreja, com o seu discernimento
evangélico, une-se a esses, oferecendo-lhes o seu serviço
em prol da verdade, da liberdade e da dignidade de cada homem e
de cada mulher.
O discernimento evangélico
5. O discernimento realizado pela Igreja torna-se oferta para orientação
que salvaguarde e realize a inteira verdade e a plena dignidade
do matrimónio e da família.
Este discernimento atinge-se pelo sentido da fé, dom que
o Espírito Santo concede a todos os fiéis, e é,
portanto, obra de toda a Igreja, segundo a diversidade dos vários
dons e carismas que, ao mesmo tempo e segundo a responsabilidade
própria de cada um, cooperam para uma mais profunda compreensão
e actuação da Palavra de Deus. A Igreja, portanto,
não realiza o discernimento evangélico próprio
só por meio dos pastores, os quais ensinam em nome e com
o poder de Cristo, mas também por meio dos leigos: Cristo
«constituiu-os testemunhas, e concedeu-lhes o sentido da fé
e o dom da palavra (cfr. Act. 2, 17-18; Apoc. 19, 10) a fim de que
a força do Evangelho resplandeça na vida quotidiana,
familiar e social». Os leigos, em razão da sua vocação
particular, têm o dever específico de interpretar à
luz de Cristo a história deste mundo, enquanto são
chamados a iluminar e dirigir as realidades temporais segundo o
desígnio de Deus Criador e Redentor.
O «sentido sobrenatural da fé» não consiste,
porém, somente ou necessariamente no consenso dos fiéis.
A Igreja, seguindo a Cristo, procura a verdade, que nem sempre coincide
com a opinião da maioria. Escuta a consciência e não
o poder e nisto defende os pobres e desprezados. A Igreja pode apreciar
também a investigação sociológica e
estatística quando se revelar útil para a compreensão
do contexto histórico no qual a acção pastoral
deve desenrolar-se e para conhecer melhor a verdade; tal investigação,
porém, não pode ser julgada por si só como
expressão do sentido da fé.
Porque é dever do ministério apostólico assegurar
a permanência da Igreja na verdade de Cristo e introduzi-la
sempre mais profundamente, os Pastores devem promover o sentido
da fé em todos os fiéis, avaliar e julgar com autoridade
a genuinidade das suas expressões, educar os crentes para
um discernimento evangélico sempre mais amadurecido.
Para a elaboração de um autêntico discernimento
evangélico nas várias situações e culturas
em que o homem e a mulher vivem o seu matrimónio e a sua
vida familiar, os esposos e os pais cristãos podem e devem
oferecer um seu próprio e insubstituível contributo.
A esta tarefa habilita-os o carisma ou dom próprio, o dom
do sacramento do matrimónio.
A situação da família no mundo de hoje
6. A situação em que se encontra a família
apresenta aspectos positivos e aspectos negativos: sinal, naqueles,
da salvação de Cristo operante no mundo; sinal, nestes,
da recusa que o homem faz ao amor de Deus.
Por um lado, de facto, existe uma consciência mais viva da
liberdade pessoal e uma maior atenção à qualidade
das relações interpessoais no matrimónio, à
promoção da dignidade da mulher, à procriação
responsável, à educação dos filhos;
há, além disso, a consciência da necessidade
de que se desenvolvam relações entre as famílias
por uma ajuda recíproca espiritual e material, a descoberta
de novo da missão eclesial própria da família
e da sua responsabilidade na construção de uma sociedade
mais justa. Por outro lado, contudo, não faltam sinais de
degradação preocupante de alguns valores fundamentais:
uma errada concepção teórica e prática
da independência dos cônjuges entre si; as graves ambiguidades
acerca da relação de autoridade entre pais e filhos;
as dificuldades concretas, que a família muitas vezes experimenta
na transmissão dos valores; o número crescente dos
divórcios; a praga do aborto; o recurso cada vez mais frequente
à esterilização; a instauração
de uma verdadeira e própria mentalidade contraceptiva.
Na raiz destes fenómenos negativos está muitas vezes
uma corrupção da ideia e da experiência de liberdade
concebida não como capacidade de realizar a verdade do projecto
de Deus sobre o matrimónio e a família, mas como força
autónoma de afirmação, não raramente
contra os outros, para o próprio bem-estar egoístico.
Merece também a nossa atenção o facto de que,
nos países do assim chamado Terceiro Mundo, faltem muitas
vezes às famílias quer os meios fundamentais para
a sobrevivência, como o alimento, o trabalho, a habitação,
os medicamentos, quer as mais elementares liberdades. Nos países
mais ricos, pelo contrário, o bem-estar excessivo e a mentalidade
consumística, paradoxalmente unida a uma certa angústia
e incerteza sobre o futuro, roubam aos esposos a generosidade e
a coragem de suscitarem novas vidas humanas: assim a vida é
muitas vezes entendida não como uma bênção,
mas como um perigo de que é preciso defender-se.
A situação histórica em que vive a família
apresenta-se, portanto, como um conjunto de luzes e sombras.
Isto revela que a história não é simplesmente
um progresso necessário para o melhor, mas antes um acontecimento
de liberdade, e ainda um combate entre liberdades que se opõem
entre si; segundo a conhecida expressão de Santo Agostinho,
um conflito entre dois amores: o amor de Deus impelido até
ao desprezo de si, e o amor de si impelido até ao desprezo
de Deus.
Segue-se que só a educação para o amor, radicada
na fé, pode levar a adquirir a capacidade de interpretar
«os sinais dos tempos», que são a expressão
histórica deste duplo amor.
O influxo da situação na consciência
dos fiéis
7. Vivendo em tal mundo, sob pressões derivadas sobretudo
dos mass-media, nem sempre os fiéis souberam e sabem manter-se
imunes diante do obscurecimento dos valores fundamentais e pôr-
se como consciência crítica desta cultura familiar
e como sujeitos activos da construção de um humanismo
familiar autêntico.
Entre os sinais mais preocupantes deste fenómeno, os Padres
Sinodais sublinharam, em particular, o difundir-se do divórcio
e do recurso a uma nova união por parte dos mesmos fiéis;
a aceitação do matrimónio meramente civil,
em contradição com a vocação dos baptizados
«a casarem-se no Senhor»; a celebração
do sacramento do matrimónio sem uma fé viva, mas por
outros motivos; a recusa das normas morais que guiam e promovem
o exercício humano e cristão da sexualidade no matrimónio.
A nossa época tem necessidade de sabedoria
8. Põe-se assim a toda a Igreja o dever de uma reflexão
e de um empenho bastante profundo, para que a nova cultura emergente
seja intimamente evangelizada, sejam reconhecidos os verdadeiros
valores, sejam defendidos os direitos do homem e da mulher e seja
promovida a justiça também nas estruturas da sociedade.
Em tal modo o «novo humanismo» não afastará
os homens da sua relação com Deus, mas conduzi-los-á
para Ele mais plenamente.
Na construção de tal humanismo, a ciência e
as suas aplicações técnicas oferecem novas
e imensas possibilidades. Todavia, a ciência, em consequência
de posições políticas que decidem a direcção
de investigações e aplicações, é
muitas vezes usada contra o seu significado originário, a
promoção da pessoa humana.
Torna-se, portanto, necessário recuperar por par te de todos
a consciência do primado dos valores morais, que são
os valores da pessoa humana como tal. A nova compreensão
do sentido último da vida e dos seus valores fundamentais
é a grande tarefa que se impõe hoje para a renovação
da sociedade. Só a consciência do primado destes valores
consente um uso das imensas possibilidades colocadas nas mãos
do homem pela ciência, que vise verdadeiramente a promoção
da pessoa humana na sua verdade integral, na sua liberdade e dignidade.
A ciência é chamada a juntar-se à sabedoria.
Podem aplicar-se aos problemas da família as palavras do
Concílio Vaticano II: «Mais do que os séculos
passados, o nosso tempo precisa de uma tal sabedoria, para que se
humanizem as novas descobertas dos homens. Está ameaçado,
com efeito, o destino do mundo, se não surgirem homens cheios
de sabedoria».
A educação da consciência moral, que faz o homem
capaz de julgar e discernir os modos aptos para a sua realização
segundo a verdade originária, torna-se assim uma exigência
prioritária e irrenunciável.
É a aliança com a sabedoria divina que deve ser mais
profundamente reconstituída na cultura moderna. De tal Sabedoria
cada homem foi feito participante pelo mesmo gesto criador de Deus.
E é só na fidelidade a esta aliança que as
famílias de hoje estarão em grau de influenciar positivamente
na construção de um mundo mais justo e fraterno.
Gradualidade e conversão
9. Todos devemos opor-nos com uma conversão da mente e do
coração, seguindo a Cristo Crucificado, no dizer não
ao próprio egoísmo, à injustiça originada
pelo pecado - profundamente penetrado também nas estruturas
do mundo de hoje - e que muitas vezes obsta a família na
plena realização de si mesma e dos seus direitos fundamentais.
Uma semelhante conversão não poderá deixar
de ter influência benéfica e renovadora mesmo sobre
as estruturas da sociedade.
É pedida uma conversão contínua, permanente,
que, embora exigindo o afastamento interior de todo o mal e a adesão
ao bem na sua plenitude, se actua concretamente em passos que conduzem
sempre para além dela. Desenvolve-se assim um processo dinamico,
que avança gradualmente com a progressiva integração
dos dons de Deus e das exigências do seu amor definitivo e
absoluto em toda a vida pessoal e social do homem. É, por
isso, necessário um caminho pedagógico de crescimento,
a fim de que os fiéis, as famílias e os povos, antes,
a própria civilização, daquilo que já
receberam do Mistério de Cristo, possam ser conduzidos pacientemente
mais além, atingindo um conhecimento mais rico e uma integração
mais plena deste mistério na sua vida.
«Inculturação»
10. É de facto conforme à tradição constante
da Igreja recolher das culturas dos povos tudo aquilo que é
em grau de exprimir melhor as inexauríveis riquezas de Cristo.
Só com o concurso de todas as culturas, tais riquezas poderão
manifestar-se sempre mais claramente e a Igreja poderá caminhar
para um conhecimento cada dia mais completo e aprofundado da verdade,
que já lhe foi inteiramente oferecida pelo seu Senhor.
Tendo firme o duplo princípio da compatibilidade das várias
culturas a assumir com o Evangelho e da comunhão com a Igreja
universal, deverá prosseguir-se no estudo - particularmente
por parte das Conferências episcopais e dos Dicastérios
competentes da Cúria Romana - e no empenhamento pastoral
para que esta «inculturação» da fé
cristã se realize sempre mais amplamente também no
âmbito do matrimónio e da família.
É mediante a «inculturação» que
se caminha para a reconstituição plena da aliança
com a Sabedoria de Deus, que é o próprio Cristo. A
Igreja inteira será enriquecida também por aquelas
culturas que, embora carentes de tecnologia, são ricas em
sabedoria humana e vivificadas por profundos valores morais.
Para que seja clara a meta deste caminho e, por conseguinte, seguramente
indicada a estrada, o Sínodo, em primeiro lugar e em profundidade
considerou justamente o projecto originário de Deus acerca
do matrimónio e da família: quis «retornar ao
princípio» em obséquio ao ensinamento de Cristo.
SEGUNDA
PARTE
O DESÍGNIO DE DEUS SOBRE O MATRIMÓNIO
E SOBRE A FAMÍLIA
O homem imagem de Deus Amor
11. Deus criou o homem à sua imagem e semelhança:
chamando-o à existência por amor, chamou-o ao mesmo
tempo ao amor.
Deus é amor e vive em si mesmo um mistério de comunhão
pessoal de amor. Criando-a à sua imagem e conservando-a continuamente
no ser, Deus inscreve na humanidade do homem e da mulher a vocação,
e, assim, a capacidade e a responsabilidade do amor e da comunhão.
O amor é, portanto, a fundamental e originária vocação
do ser humano.
Enquanto espírito encarnado, isto é, alma que se exprime
no corpo informado por um espírito imortal, o homem é
chamado ao amor nesta sua totalidade unificada. O amor abraça
também o corpo humano e o corpo torna-se participante do
amor espiritual.
A Revelação cristã conhece dois modos específicos
de realizar a vocação da pessoa humana na sua totalidade
ao amor: o Matrimónio e a Virgindade. Quer um quer outro,
na sua respectiva forma própria, são uma concretização
da verdade mais profunda do homem, do seu «ser à imagem
de Deus».
Por consequência a sexualidade, mediante a qual o homem e
a mulher se doam um ao outro com os actos próprios e exclusivos
dos esposos, não é em absoluto algo puramente biológico,
mas diz respeito ao núcleo íntimo da pessoa humana
como tal. Esta realiza-se de maneira verdadeiramente humana, somente
se é parte integral do amor com o qual homem e mulher se
empenham totalmente um para com o outro até à morte.
A doação física total seria falsa se não
fosse sinal e fruto da doação pessoal total, na qual
toda a pessoa, mesmo na sua dimensão temporal, está
presente: se a pessoa se reservasse alguma coisa ou a possibilidade
de decidir de modo diferente para o futuro, só por isto já
não se doaria totalmente.
Esta totalidade, pedida pelo amor conjugal, corresponde também
às exigências de uma fecundidade responsável,
que, orientada como está para a geração de
um ser humano, supera, por sua própria natureza, a ordem
puramente biológica, e abarca um conjunto de valores pessoais,
para cujo crescimento harmonioso é necessário o estável
e concorde contributo dos pais.
O «lugar» único, que torna possível esta
doação segundo a sua verdade total, é o matrimónio,
ou seja o pacto de amor conjugal ou escolha consciente e livre,
com a qual o homem e a mulher recebem a comunidade íntima
de vida e de amor, querida pelo próprio Deus, que só
a esta luz manifesta o seu verdadeiro significado. A instituição
matrimonial não é uma ingerência indevida da
sociedade ou da autoridade, nem a imposição extrínseca
de uma forma, mas uma exigência interior do pacto de amor
conjugal que publicamente se afirma como único e exclusivo,
para que seja vivida assim a plena fidelidade ao desígnio
de Deus Criador. Longe de mortificar a liberdade da pessoa, esta
fidelidade põe-na em segurança em relação
ao subjectivismo e relativismo, fá-la participante da Sabedoria
Criadora.
O matrimónio e a comunhão entre Deus e os
homens
12. A comunhão de amor entre Deus e os homens, conteúdo
fundamental da Revelação e da experiência de
fé de Israel, encontra uma sua significativa expressão
na aliança nupcial, que se instaura entre o homem e a mulher.
É por isto que a palavra central da Revelação,
«Deus ama o seu povo», é também pronunciada
através das palavras vivas e concretas com que o homem e
a mulher se declaram o seu amor conjugal. O seu vínculo de
amor torna-se a imagem e o símbolo da Aliança que
une Deus e o seu povo. E o mesmo pecado, que pode ferir o pacto
conjugal, torna-se imagem da infidelidade do povo para com o seu
Deus: a idolatria é prostituição, a infidelidade
é adultério, a desobediência à lei é
abandono do amor nupcial para com o Senhor. Mas a infidelidade de
Israel não destrói a fidelidade eterna do Senhor e,
portanto, o amor sempre fiel de Deus põe-se como exemplar
das relações do amor fiel que devem existir entre
os esposos.
Jesus Cristo, esposo da Igreja, e o sacramento do matrimónio
13. A comunhão entre Deus e os homens encontra o seu definitivo
cumprimento em Jesus Cristo, o Esposo que ama e se doa como Salvador
da humanidade, unindo-a a Si como seu corpo.
Ele revela a verdade originária do matrimónio, a verdade
do «princípio» e, libertando o homem da dureza
do seu coração, torna-o capaz de a realizar inteiramente.
Esta revelação chega à sua definitiva plenitude
no dom do amor que o Verbo de Deus faz à humanidade, assumindo
a natureza humana, e no sacrifício que Jesus Cristo faz de
si mesmo sobre a cruz pela sua Esposa, a Igreja. Neste sacrifício
descobre-se inteiramente aquele desígnio que Deus imprimiu
na humanidade do homem e da mulher, desde a sua criação;
o matrimónio dos baptizados torna-se assim o símbolo
real da Nova e Eterna Aliança, decretada no Sangue de Cristo.
O Espírito, que o Senhor infunde, doa um coração
novo e torna o homem e a mulher capazes de se amarem, como Cristo
nos amou. O amor conjugal atinge aquela plenitude para a qual está
interiormente ordenado: a caridade conjugal, que é o modo
próprio e específico com que os esposos participam
e são chamados a viver a mesma caridade de Cristo que se
doa sobre a Cruz.
Numa página merecidamente famosa, Tertuliano exprimia bem
a grandeza e a beleza desta vida conjugal em Cristo: «Donde
me será dado expor a felicidade do matrimónio unido
pela Igreja, confirmado pela oblação eucarística,
selado pela bênção, que os anjos anunciam e
o Pai ratifica? ... Qual jugo aquele de dois fiéis numa única
esperança, numa única observância, numa única
servidão! São irmãos e servem conjuntamente
sem divisão quanto ao espírito, quanto à carne.
Mais, são verdadeiramente dois numa só carne e donde
a carne é única, único é o espírito».
Acolhendo e meditando fielmente a Palavra de Deus, a Igreja tem
solenemente ensinado e ensina que o matrimónio dos baptizados
é um dos sete sacramentos da Nova Aliança.
De facto, mediante o baptismo, o homem e a mulher estão definitivamente
inseridos na Nova e Eterna Aliança, na Aliança nupcial
de Cristo com a Igreja. E é em razão desta indestrutível
inserção que a íntima comunidade de vida e
de amor conjugal, fundada pelo Criador, é elevada e assumida
pela caridade nupcial de Cristo, sustentada e enriquecida pela sua
força redentora.
Em virtude da sacramentalidade do seu matrimónio, os esposos
estão vinculados um ao outro da maneira mais profundamente
indissolúvel. A sua pertença recíproca é
a representação real, através do sinal sacramental,
da mesma relação de Cristo com a Igreja.
Os esposos são portanto para a Igreja o chamamento permanente
daquilo que aconteceu sobre a Cruz; são um para o outro,
e para os filhos, testemunhas da salvação da qual
o sacramento os faz participar. Deste acontecimento de salvação,
o matrimónio como cada sacramento, é memorial, actualização
e profecia: «Enquanto memorial, o sacramento dá-lhes
a graça e o dever de recordar as grandes obras de Deus e
de as testemunhar aos filhos; enquanto actualização,
dá-lhes a graça e o dever de realizar no presente,
um para com o outro e para com os filhos, as exigências de
um amor que perdoa e que redime; enquanto profecia dá-lhes
a graça e o dever de viver e de testemunhar a esperança
do futuro encontro com Cristo».
Como cada um dos sete sacramentos, também o matrimónio
é um símbolo real do acontecimento da salvação,
mas de um modo próprio. «Os esposos participam nele
enquanto esposos, a dois como casal, a tal ponto que o efeito primeiro
e imediato do matrimónio (res et sacramentum) não
é a graça sacramental propriamente, mas o vínculo
conjugal cristão, uma comunhão a dois tipicamente
cristã porque representa o mistério da Encarnação
de Cristo e o seu Mistério de Aliança. E o conteúdo
da participação na vida de Cristo é também
específico: o amor conjugal comporta uma totalidade na qual
entram todos os componentes da pessoa - chamada do corpo e do instinto,
força do sentimento e da afectividade, aspiração
do espírito e da vontade - ; o amor conjugal dirige-se a
uma unidade profundamente pessoal, aquela que, para além
da união numa só carne, não conduz senão
a um só coração e a uma só alma; ele
exige a indissolubilidade e a fidelidade da doação
recíproca definitiva e abre-se à fecundidade (cfr.
Enciclica Humanae Vitae, n. 9). Numa palavra, trata-se de características
normais do amor conjugal natural, mas com um significado novo que
não só as purifica e as consolida, mas eleva-as a
ponto de as tornar a expressão dos valores propriamente cristãos».
Os filhos, dom preciosíssimo do matrimónio
14. Segundo o desígnio de Deus, o matrimónio é
o fundamento da mais ampla comunidade da família, pois que
o próprio instituto do matrimónio e o amor conjugal
se ordenam à procriação e educação
da prole, na qual encontram a sua coroação.
Na sua realidade mais profunda, o amor é essencialmente dom
e o amor conjugal, enquanto conduz os esposos ao «conhecimento»
recíproco que os torna «uma só carne»,
não se esgota no interior do próprio casal, já
que os habilita para a máxima doação possível,
pela qual se tornam cooperadores com Deus no dom da vida a uma nova
pessoa humana. Deste modo os cônjuges, enquanto se doam entre
si, doam para além de si mesmo a realidade do filho, reflexo
vivo do seu amor, sinal permanente da unidade conjugal e síntese
viva e indissociável do ser pai e mãe.
Tornando-se pais, os esposos recebem de Deus o dom de uma nova responsabilidade.
O seu amor paternal é chamado a tornar-se para os filhos
o sinal visível do próprio amor de Deus, «do
qual deriva toda a paternidade no céu e na terra».
Não deve todavia esquecer-se que, mesmo quando a procriação
não é possível, nem por isso a vida conjugal
perde o seu valor. A esterilidade física, de facto, pode
ser para os esposos ocasião de outros serviços importantes
à vida da pessoa humana, como por exemplo a adopção,
as várias formas de obras educativas, a ajuda a outras famílias,
às crianças pobres ou deficientes.
A família, comunhão de pessoas
15. No matrimónio e na família constitui-se um complexo
de relações interpessoais - vida conjugal, paternidade-maternidade,
filiação, fraternidade - mediante as quais cada pessoa
humana é introduzida na «família humana»
e na «família de Deus», que é a Igreja.
O matrimónio e a família dos cristãos edificam
a Igreja: na família, de facto, a pessoa humana não
só é gerada e progressivamente introduzida, mediante
a educação, na comunidade humana, mas mediante a regeneração
do baptismo e a educação na fé, é introduzida
também na família de Deus, que é a Igreja.
A família humana, desagregada pelo pecado, é reconstituída
na sua unidade pela força redentora da morte e ressurreição
de Cristo. O matrimónio cristão, partícipe
da eficácia salvífica deste acontecimento, constitui
o lugar natural onde se cumpre a inserção da pessoa
humana na grande família da Igreja.
O mandato de crescer e de multiplicar-se, dirigido desde o princípio
ao homem e à mulher, atinge desta maneira a sua plena verdade
e a sua integral realização.
A Igreja encontra assim na família, nascida do sacramento,
o seu berço e o lugar onde pode actuar a própria inserção
nas gerações humanas, e estas, reciprocamente, na
Igreja.
Matrimónio e virgindade
16. A virgindade e o celibato pelo Reino de Deus não só
não contradizem a dignidade do matrimónio, mas a pressupõem
e confirmam. O matrimónio e a virgindade são os dois
modos de exprimir e de viver o único Mistério da Aliança
de Deus com o seu povo. Quando não se tem apreço pelo
matrimónio, não tem lugar a virgindade consagrada;
quando a sexualidade humana não é considerada um grande
valor dado pelo Criador, perde significado a renúncia pelo
Reino dos Céus.
De modo muito justo diz S. João Crisóstomo: «Quem
condena o matrimónio, priva a virgindade da sua glória;
pelo contrário, quem o louva, torna a virgindade mais admirável
e esplendente. O que parece um bem apenas quando comparado ao mal,
não é pois um grande bem; mas o que é melhor
do que aquilo que todos consideram bom, é certamente um bem
em grau superlativo»
Na virgindade o homem está inclusive corporalmente em atitude
de espera, pelas núpcias escatológicas de Cristo com
a Igreja, dando-se integralmente à Igreja na esperança
de que Cristo se lhe doe na plena verdade da vida eterna. A pessoa
virgem antecipa assim na sua carne o mundo novo da ressurreição
futura.
Por força deste testemunho, a virgindade mantém viva
na Igreja a consciência do mistério do matrimónio
e defende-o de todo o desvio e de todo o empobrecimento.
Tornando livre de um modo especial o coração humano,
«de forma a inebriá-lo muito mais de caridade para
com Deus e para com todos os homens», a virgindade testemunha
que o Reino de Deus e a sua justiça são aquela pérola
preciosa que é preferida a qualquer outro valor, mesmo que
seja grande, e, mais ainda, é procurada como o único
valor definitivo. É por isso que a Igreja, durante toda a
sua história, defendeu sempre a superioridade deste carisma
no confronto com o do matrimónio, em razão do laço
singular que ele tem com o Reino de Deus.
Embora tendo renunciado à fecundidade física, a pessoa
virgem torna-se espiritualmente fecunda, pai e mãe de muitos,
cooperando na realização da família segundo
o desígnio de Deus.
Os esposos cristãos têm portanto o direito de esperar
das pessoas virgens o bom exemplo e o testemunho da fidelidade à
sua vocação até à morte. Como para os
esposos a fidelidade se torna às vezes difícil e exige
sacrifício, mortificação e renúncia,
também o mesmo pode acontecer às pessoas virgens.
A fidelidade destas, mesmo na provação eventual, deve
edificar a fidelidade daqueles.
Estas reflexões sobre a virgindade podem iluminar e ajudar
os que, por motivos independentes da sua vontade, não se
puderam casar e depois aceitaram a sua situação em
espírito de serviço.
TERCEIRA
PARTE
OS DEVERES DA FAMÍLIA CRISTÃ
Família, torna-te aquilo que és!
17. No plano de Deus Criador e Redentor a família descobre
não só a sua «identidade», o que «é»,
mas também a sua «missão», o que ela pode
e deve «fazer». As tarefas, que a família é
chamada por Deus a desenvolver na história, brotam do seu
próprio ser e representam o seu desenvolvimento dinâmico
e existencial. Cada família descobre e encontra em si mesma
o apelo inextinguível, que ao mesmo tempo define a sua dignidade
e a sua responsabilidade: família, «torna-te aquilo
que és»!
Voltar ao «princípio» do gesto criativo de Deus
é então uma necessidade para a família, se
se quiser conhecer e realizar segundo a verdade interior não
só do seu ser mas também do seu agir histórico.
E porque, segundo o plano de Deus, é constituída qual
«íntima comunidade de vida e de amor», a família
tem a missão de se tornar cada vez mais aquilo que é,
ou seja, comunidade de vida e de amor, numa tensão que, como
para cada realidade criada e redimida, encontrará a plenitude
no Reino de Deus. E numa perspectiva que atinge as próprias
raízes da realidade, deve dizer-se que a essência e
os deveres da família são, em última análise,
definidos pelo amor. Por isto é-lhe confiada a missão
de guardar, revelar e comunicar o amor, qual reflexo vivo e participação
real do amor de Deus pela humanidade e do amor de Cristo pela Igreja,
sua esposa.
Cada dever particular da família é a expressão
e a actuação concreta de tal missão fundamental.
É necessário, portanto, penetrar mais profundamente
na riqueza singular da missão da família e sondar
os seus conteúdos numerosos e unitários.
Em tal sentido, partindo do amor e em permanente referência
a ele, o recente Sínodo pôs em evidência quatro
deveres gerais da família:
1) a formação de uma comunidade de pessoas;
2) o serviço à vida;
3) a participação no desenvolvimento da sociedade;
4) a participação na vida e na missão da Igreja.
I - A FORMAÇÃO DE UMA
COMUNIDADE DE PESSOAS
O amor, princípio e força de comunhão
18. A família, fundada e vivificada pelo amor, é uma
comunidade de pessoas: dos esposos, homem e mulher, dos pais e dos
filhos, dos parentes. A sua primeira tarefa é a de viver
fielmente a realidade da comunhão num constante empenho por
fazer crescer uma autêntica comunidade de pessoas.
O princípio interior, a força permanente e a meta
última de tal dever é o amor: como, sem o amor, a
família não é uma comunidade de pessoas, assim,
sem o amor, a família não pode viver, crescer e aperfeiçoar-se
como comunidade de pessoas. Quanto escrevi na Encíclica Redemptor
Hominis encontra, exactamente na familía como tal, a sua
aplicação originária e privilegiada: «O
homem não pode viver sem amor. Ele permanece para si próprio
um ser incompreensível e a sua vida é destituída
de sentido, se não lhe for revelado o amor, se ele não
se encontra com o amor, se não o experimenta e se não
o torna algo próprio, se nele não participa vivamente».
O amor entre o homem e a mulher no matrimónio e, de forma
derivada e ampla, o amor entre os membros da mesma família
- entre pais e filhos, entre irmãos e irmãs, entre
parentes e familiares - é animado e impelido por um dinamismo
interior e incessante, que conduz a família a uma comunhão
sempre mais profunda e intensa, fundamento e alma da comunidade
conjugal e familiar.
A unidade indivisível da comunhão conjugal
19. A primeira comunhão é a que se instaura e desenvolve
entre os cônjuges: em virtude do pacto de amor conjugal, o
homem e a mulher «já não são dois, mas
uma só carne» e são chamados a crescer continuamente
nesta comunhão através da fidelidade quotidiana à
promessa matrimonial do recíproco dom total.
Esta comunhão conjugal radica-se na complementariedade natural
que existe entre o homem e a mulher e alimenta-se mediante a vontade
pessoal dos esposos de condividir, num projecto de vida integral,
o que têm e o que são: por isso, tal comunhão
é fruto e sinal de uma exigência profundamente humana.
Porém, em Cristo, Deus assume esta exigência humana,
confirma-a, purifica-a e eleva-a, conduzindo-a à perfeição
com o sacramento do matrimónio: o Espírito Santo infuso
na celebração sacramental oferece aos esposos cristãos
o dom de uma comunidade nova, de amor, que é a imagem viva
e real daquela unidade singularíssima, que torna a Igreja
o indivisível Corpo Místico do Senhor.
O dom do Espírito é um mandamento de vida para os
esposos cristãos e, ao mesmo tempo, impulso estimulante a
que progridam continuamente numa união cada vez mais rica
a todos os níveis - dos corpos, dos caracteres, dos corações,
das inteligências e das vontades, das almas - revelando deste
modo à Igreja e ao mundo a nova comunhão de amor,
doada pela graça de Cristo.
A poligamia contradiz radicalmente uma tal comunhão. Nega
de facto, directamente o plano de Deus como nos foi revelado nas
origens, porque contrária à igual dignidade pessoal
entre o homem e a mulher, que no matrimónio se doam com um
amor total e por isso mesmo único e exclusivo. Como escreve
o Concílio Vaticano II: «A unidade do matrimónio,
confirmado pelo Senhor, manifesta-se também claramente na
igual dignidade pessoal da mulher e do homem que se deve reconhecer
no mútuo e pleno amor».
Uma comunhão indissolúvel
20. A comunhão conjugal caracteriza-se não só
pela unidade mas também pela sua indissolubilidade: «Esta
união íntima, já que é dom recíproco
de duas pessoas, exige, do mesmo modo que o bem dos filhos, a inteira
fidelidade dos cônjuges e a indissolubilidade da sua união».
É dever fundamental da Igreja reafirmar vigorosamente - como
fizeram os Padres do Sínodo - a doutrina da indissolubilidade
do matrimónio: a quantos, nos nossos dias, consideram difícil
ou mesmo impossível ligar-se a uma pessoa por toda a vida
e a quantos, subvertidos por uma cultura que rejeita a indissolubilidade
matrimonial e que ridiculariza abertamente o empenho de fidelidade
dos esposos, é necessário reafirmar o alegre anúncio
da forma definitiva daquele amor conjugal, que tem em Jesus Cristo
o fundamento e o vigor.
Radicada na doação pessoal e total dos cônjuges
e exigida pelo bem dos filhos, a indissolubilidade do matrimónio
encontra a sua verdade última no desígnio que Deus
manifestou na Revelação: Ele quer e concede a indissolubilidade
matrimonial como fruto, sinal e exigência do amor absolutamente
fiel que Deus Pai manifesta pelo homem e que Cristo vive para com
a Igreja.
Cristo renova o desígnio primitivo que o Criador inscreveu
no coração do homem e da mulher, e, na celebração
do sacramento do matrimónio, oferece um «coração
novo»: assim os cônjuges podem não só
superar a «dureza do coração», mas também
e sobretudo compartir o amor pleno e definitivo de Cristo, nova
e eterna Aliança feita carne. Assim como o Senhor Jesus é
a «testemunha fiel», é o «sim» das
promessas de Deus e, portanto, a realização suprema
da fidelidade incondicional com que Deus ama o seu povo, da mesma
forma os cônjuges cristãos são chamados a uma
participação real na indissolubilidade irrevogável,
que liga Cristo à Igreja, sua esposa, por Ele amada até
ao fim.
O dom do sacramento é, ao mesmo tempo, vocação
e dever dos esposos cristãos, para que permaneçam
fiéis um ao outro para sempre, para além de todas
as provas e dificuldades, em generosa obediência à
santa vontade do Senhor: «O que Deus uniu, não o separe
o homem».
Testemunhar o valor inestimável da indissolubilidade e da
fidelidade matrimonial é uma das tarefas mais preciosas e
mais urgentes dos casais cristãos do nosso tempo. Por isso,
juntamente com todos os Irmãos que participaram no Sínodo
dos Bispos, louvo e encorajo os numerosos casais que, embora encontrando
não pequenas dificuldades, conservam e desenvolvem o dom
da indissolubilidade: cumprem desta maneira, de um modo humilde
e corajoso, o dever que lhes foi confiado de ser no mundo um «sinal»
- pequeno e precioso sinal, submetido também às vezes
à tentação, mas sempre renovado - da fidelidade
infatigável com que Deus e Jesus Cristo amam todos os homens
e cada homem. Mas é também imperioso reconhecer o
valor do testemunho daqueles cônjuges que, embora tendo sido
abandonados pelo consorte, com a força da fé e da
esperança cristãs, não contraíram uma
nova união. Estes cônjuges dão também
um autêntico testemunho de fidelidade, de que tanto necessita
o mundo de hoje. Por isto mesmo devem ser encorajados e ajudados
pelos pastores e pelos fiéis da Igreja.
A comunhão mais ampla da família
21. A comunhão conjugal constitui o fundamento sobre o qual
se continua a edificar a mais ampla comunhão da família:
dos pais e dos filhos, dos irmãos e das irmãs entre
si, dos parentes e de outros familiares.
Tal comunhão radica-se nos laços naturais da carne
e do sangue, e desenvolve-se encontrando o seu aperfeiçoamento
propriamente humano na instauração e maturação
dos laços ainda mais profundos e ricos do espírito:
o amor, que anima as relações interpessoais dos diversos
membros da família, constitui a força interior que
plasma e vivifica a comunhão e a comunidade familiar.
A família cristã é, portanto, chamada a fazer
a experiência de uma comunhão nova e original, que
confirma e aperfeiçoa a comunnhão natural e humana.
Na realidade, a graça de Jesus Cristo, «o Primogénito
entre muitos irmãos», é por sua natureza e dinamismo
interior uma «graça de fraternidade» como a chama
Santo Tomás de Aquino. O Espírito Santo, que se infunde
na celebração dos sacramentos, é a raiz viva
e o alimento inexaurível da comunhão sobrenatural
que estreita e vincula os crentes com Cristo, na unidade da Igreja
de Deus. Uma revelação e actuação específica
da comunhão eclesial é constituída pela família
cristã que também, por isto, se pode e deve chamar
«Igreja doméstica»,
Todos os membros da família, cada um segundo o dom que lhe
é peculiar, possuem a graça e a responsabilidade de
construir, dia após dia, a comunhão de pessoas, fazendo
da família uma «escola de humanismo mais completo e
mais rico»: é o que vemos surgir com o cuidado e o
amor para com os mais pequenos, os doentes e os anciãos;
com o serviço reciproco de todos os dias; com a coparticipação
nos bens, nas alegrias e nos sofrimentos.
Um momento fundamental para construir uma comunhão semelhante
é constituído pelo intercambio educativo entre pais
e filhos, no qual cada um deles dá e recebe. Mediante o amor,
o respeito, a obediência aos pais, os filhos dão o
seu contributo específico e insubstituível para a
edificação de uma família autenticamente humana
e cristã. Isso ser-lhe-á facilitado, se os pais exercerem
a sua autoridade irrenunciável como um «ministério»
verdadeiro e pessoal, ou seja, como um serviço ordenado ao
bem humano e cristão dos filhos, ordenado particularmente
a proporcionar-lhes uma liberdade verdadeiramente responsável;
e se os pais mantiverem viva a consciência do «dom»
que recebem continuamente dos filhos.
A comunhão familiar só pode ser conservada e aperfeiçoada
com grande espírito de sacrifício. Exige, de facto,
de todos e de cada um, pronta e generosa disponibilidade à
compreensão, à tolerância, ao perdão,
à reconciliação. Nenhuma família ignora
como o egoísmo, o desacordo, as tensões, os conflitos
agridem, de forma violenta e às vezes mortal, a comunhão:
daqui as múltiplas e variadas formas de divisão da
vida familiar. Mas, ao mesmo tempo, cada família é
sempre chamada pelo Deus da paz a fazer a experiência alegre
e renovadora da «reconciliação», ou seja,
da comunhão restabelecida, da unidade reencontrada Em particular
a participação no sacramento da reconciliação
e no banquete do único Corpo de Cristo oferece à família
cristã a graça e a responsabilidade de superar todas
as divisões e de caminhar para a plena verdade querida por
Deus, respondendo assim ao vivíssimo desejo do Senhor: que
«todos sejam um».
Direitos e função da mulher
22. Enquanto é, e deve tornar-se, comunhão e comunidade
de pessoas, a família encontra no amor a fonte e o estímulo
incessante para acolher, respeitar e promover cada um dos seus membros
na altíssima dignidade de pessoas, isto é, de imagens
vivas de Deus. Como justamente afirmaram os Padres Sinodais, o critério
moral da autenticidade das relações conjugais e familiares
consiste na promoção da dignidade e vocação
de cada uma das pessoas que encontram a sua plenitude mediante o
dom sincero de si mesmas.
Nesta perspectiva, o Sínodo quis prestar atenção
privilegiada à mulher, aos seus direitos e função
na família e na sociedade. Nesta mesma perspectiva devem
considerar-se também o homem como esposo e pai, a criança
e os anciãos.
É de ressaltar- se antes de tudo a igual dignidade e responsabilidade
da mulher em relação ao homem: tal igualdade encontra
uma forma singular de realização na doação
reciproca de si ao outro e de ambos aos filhos, doação
que é específica do matrimónio e da família.
Tudo o que a razão intui e reconhece, vem revelado plenamente
pela Palavra de Deus: a história da salvação
é, de facto, um contínuo e claro testemunho da dignidade
da mulher.
Ao criar o homem «varão e mulher», Deus dá
a dignidade pessoal de igual modo ao homem e à mulher, enriquecendo-os
dos direitos inalienáveis e das responsabilidades que são
próprias da pessoa humana. Deus manifesta ainda na forma
mais elevada possível a dignidade da mulher, ao assumir Ele
mesmo a carne humana da Virgem Maria, que a Igreja honra como Mãe
de Deus, chamando-a nova Eva e propondo-a como modelo da mulher
redimida. O delicado respeito de Jesus para com as mulheres a quem
chamou ao seu séquito e amizade, a aparição
na manhã da Páscoa a uma mulher antes que aos discípulos,
a missão confiada às mulheres de levar a boa nova
da Ressurreição aos apóstolos, são tudo
sinais que confirmam a especial estima de Jesus para com a mulher.
Dirá o Apóstolo Paulo: «Porque todos vós
sois filhos de Deus, mediante a fé em Jesus Cristo ... Não
há judeu nem grego; não há servo nem livre;
não há homem nem mulher, pois todos vós sois
um só em Cristo Jesus».
A mulher e a sociedade
23. Sem entrar agora a tratar nos seus vários aspectos o
amplo e complexo tema das relações mulher-sociedade,
mas limitando estas considerações a alguns pontos
essenciais, não se pode deixar de observar como, no campo
mais especificamente familiar, uma ampla e difundida tradição
social e cultural tenha pretendido confiar à mulher só
a tarefa de esposa e mãe, sem a estender adequadamente às
funções públicas, em geral, reservadas ao homem.
Não há dúvida que a igual dignidade e responsabilidade
do homem e da mulher justificam plenamente o acesso da mulher às
tarefas públicas. Por outro lado, a verdadeira promoção
da mulher exige também que seja claramente reconhecido o
valor da sua função materna e familiar em confronto
com todas as outras tarefas públicas e com todas as outras
profissões. De resto, tais tarefas e profissões devem
integrar-se entre si se se quer que a evolução social
e cultural seja verdadeira e plenamente humana.
Isto conseguir-se-á mais facilmente se, como o desejou o
Sínodo, uma renovada «teologia do trabalho» esclarecer
e aprofundar o significado do trabalho na vida cristã e determinar
o laço fundamental que existe entre o trabalho e a família,
e, portanto, o significado original e insubstituível do trabalho
da casa e da educação dos filhos. Portanto a Igreja
pode e deve ajudar a sociedade actual pedindo insistentemente que
seja reconhecido por todos e honrado no seu insubstituível
valor o trabalho da mulher em casa. Isto é de importância
particular na obra educativa: de facto, elimina-se a própria
raiz da possível discriminação entre os diversos
trabalhos e profissões, logo que se veja claramente como
todos, em cada campo, se empenham com idêntico direito e com
idêntica responsabilidade. Deste modo aparecerá mais
esplendente a imagem de Deus no homem e na mulher.
Se há que reconhecer às mulheres, como aos homens,
o direito de ascender às diversas tarefas públicas,
a sociedade deve estruturar-se, contudo, de maneira tal que as esposas
e as mães não sejam de facto constrangidas a trabalhar
fora de casa e que a família possa dignamente viver e prosperar,
mesmo quando elas se dedicam totalmente ao lar próprio.
Deve além disso superar-se a mentalidade segundo a qual a
honra da mulher deriva mais do trabalho externo do que da actividade
familiar. Mas isto exige que se estime e se ame verdadeiramente
a mulher com todo o respeito pela sua dignidade pessoal, e que a
sociedade crie e desenvolva as devidas condições para
o trabalho doméstico.
A Igreja, com o devido respeito pela vocação diversa
do homem e da mulher, deve promover, na medida do possível,
também na sua vida, a igualdade deles quanto a direitos e
dignidades, e isto para o bem de todos: da família, da Igreja
e da sociedade.
É evidente, porém, que isto não significa para
a mulher a renúncia à sua feminilidade nem a imitação
do carácter masculino, mas a plenitude da verdadeira humanidade
feminil, tal como se deve exprimir no seu agir, quer na família
quer fora dela, sem contudo esquecer, neste campo, a variedade dos
costumes e das culturas.
Ofensas à dignidade da mulher
24. Infelizmente a mensagem cristã acerca da dignidade da
mulher vem sendo impugnada por aquela persistente mentalidade que
considera o ser humano não como pessoa, mas como coisa, como
objecto de compra-venda, ao serviço de um interesse egoístico
e exclusivo do prazer: e a primeira vítima de tal mentalidade
é a mulher.
Esta mentalidade produz frutos bastante amargos, como o desprezo
do homem e da mulher, a escravidão, a opressão dos
fracos, a pornografia, a prostituição - sobretudo
quando é organizada - e todas aquelas várias discriminações
que se encontram no âmbito da educação, da profissão,
da retribuição do trabalho, etc.
Além disso, ainda hoje, em grande parte da nossa sociedade,
permanecem muitas formas de discriminação aviltante
que ferem e ofendem gravemente algumas categorias particulares de
mulheres, como, por exemplo, as esposas que não têm
filhos, as viúvas, as separadas, as divorciadas, as mães-solteiras.
Estas e outras discriminações foram veementemente
deploradas pelos Padres Sinodais. Solicito, pois, que se desenvolva
uma acção pastoral específica mais vigorosa
e incisiva, a fim de que sejam vencidas em definitivo, para se poder
chegar à estima plena da imagem de Deus que esplandece em
todos os seres humanos, sem nenhuma exclusão.
O homem esposo e pai
25. É dentro da comunhão-comunidade conjugal e familiar
que o homem é chamado a viver o seu dom e dever de esposo
e pai.
Na esposa ele vê o cumprimento do desígnio de Deus:
«Não é conveniente que o homem esteja só;
vou dar-lhe um auxiliar semelhante a ele» e faz sua a exclamação
de Adão, o primeiro esposo: «Esta é, realmente,
osso dos meus osos e carne da minha carne».
O amor conjugal autêntico supõe e exige que o homem
tenha um profundo respeito pela igual dignidade da mulher: «Não
és o senhor - escreve Santo Ambrósio - mas o marido;
não te foi dada como escrava, mas como mulher... Retribui-lhe
as atenções tidas para contigo e sê-lhe agradecido
pelo seu amor». Com a esposa o homem deve viver «uma
forma muito especial de amizade pessoal». O cristão,
é, além disso, chamado a desenvolver uma atitude de
amor novo, manifestando para com a sua esposa a caridade delicada
e forte que Cristo nutre pela Igreja.
O amor à esposa tornada mãe e o amor aos filhos são
para o homem o caminho natural para a compreensão e realização
da paternidade. De modo especial onde as condições
sociais e culturais constringem facilmente o pai a um certo desinteresse
em relação à família ou de qualquer
forma a uma menor presença na obra educativa, é necessário
ser-se solícito para que se recupere socialmente a convicção
de que o lugar e a tarefa do pai na e pela família são
de importância única e insubstituível. Como
a experiência ensina, a ausência do pai provoca desiquilíbrios
psicológicos e morais e dificuldades notáveis nas
relações familiares. O mesmo acontece também,
em circunstancias opostas, pela presença opressiva do pai,
especialmente onde ainda se verifica o fenómeno do «machismo»,
ou seja da superioridade abusiva das prerrogativas masculinas que
humilham a mulher e inibem o desenvolvimento de relações
familiares sadias.
Revelando e revivendo na terra a mesma paternidade de Deus, o homem
é chamado a garantir o desenvolvimento unitário de
todos os membros da família. Cumprirá tal dever mediante
uma generosa responsabilidade pela vida concebida sob o coração
da mãe e por um empenho educativo mais solícito e
condividido com a esposa, por um trabalho que nunca desagregue a
família mas a promova na sua constituição e
estabilidade, por um testemunho de vida cristã adulta, que
introduza mais eficazmente os filhos na experiência viva de
Cristo e da Igreja.
Os direitos da criança
26. Na família, comunidade de pessoas, deve reservar-se uma
especialíssima atenção à criança,
desenvolvendo uma estima profunda pela sua dignidade pessoal como
também um grande respeito e um generoso serviço pelos
seus direitos. Isto vale para cada criança, mas adquire uma
urgência singular quanto mais pequena e desprovida, doente,
sofredora ou diminuída for a criança.
Solicitando e vivendo um cuidado terno e forte por cada criança
que vem a este mundo, a Igreja cumpre uma sua missão fundamental:
revelar e repetir na história o exemplo e o mandamento de
Cristo, que quis pôr a criança em destaque no Reino
de Deus: «Deixai vir a Mim os pequeninos e não os impeçais
pois deles é o reino de Deus».
Repito novamente o que disse na Assembleia geral das Nações
Unidas em 2 de Outubro de 1979: «Desejo ... exprimir a felicidade
que para cada um de nós constituem as crianças, primavera
da vida, antecipação da história futura de
cada pátria terrestre. Nenhum país do mundo, nenhum
sistema político pode pensar no seu futuro senão através
da imagem destas novas gerações que assumirão
dos pais o múltiplo património dos valores, dos deveres
e das aspirações da nação à qual
pertencem, e o de toda a família humana. A solicitude pela
criança ainda antes do nascimento, desde o primeiro momento
da concepção e, depois, nos anos da infancia e da
adolescência, é a primária e fundamental prova
da relação do homem com o homem. E, portanto, que
mais se poderá augurar a cada nação e a toda
a humanidade, a todas as crianças do mundo senão aquele
futuro melhor no qual o respeito dos direitos do homem se torne
plena realidade no aproximar-se do ano dois mil?».
O acolhimento, o amor, a estima, o serviço multíplice
e unitário - material, afectivo, educativo, espiritual -
a cada criança que vem a este mundo deverão constituir
sempre uma nota distintiva irrenunciável dos cristãos,
em particular das famílias cristãs. Deste modo as
crianças, ao poderem crescer «em sabedoria, idade e
graça diante de Deus e dos homens», darão o
seu precioso contributo à edificação da comunidade
familiar e à santificação dos pais.
Os anciãos na família
27. Há culturas que manifestam uma veneração
singular e um grande amor pelo ancião: longe de ser excluído
da família ou de ser suportado como um peso inútil,
o ancião continua inserido na vida familiar, tomando nela
parte activa e responsável - embora devendo respeitar a autonomia
da nova família - e sobretudo desenvolvendo a missão
preciosa de testemunha do passado e de inspirador de sabedoria para
os jovens e para o futuro.
Outras culturas, pelo contrário, especialmente depois de
um desenvolvimento industrial e urbanístico desordenado,
forçaram e continuam a forçar os anciãos a
situações inaceitáveis de marginalização
que são fonte de atrozes sofrimentos para eles mesmos e de
empobrecimento espiritual para muitas famílias.
É necessário que a acção pastoral da
Igreja estimule todos a descobrir e a valorizar as tarefas dos anciãos
na comunidade civil e eclesial, e, em particular, na família.
Na realidade, «a vida dos anciãos ajuda-nos a esclarecer
a escala dos valores humanos; mostra a continuidade das gerações
e demonstra maravilhosamente a interdependência do povo de
Deus. Os anciãos têm além disso o carisma de
encher os espaços vazios entre gerações, antes
que se sublevem. Quantas crianças têm encontrado compreensão
e amor nos olhos, nas palavras e nos carinhos dos anciãos!
E quantas pessoas de idade têm subscrito com gosto as inspiradas
palavras bíblicas que a "coroa dos anciãos são
os filhos dos filhos" (Prov. 17, 6)».
II - O SERVIÇO À VIDA
1) A transmissão da vida
Cooperadores do amor de Deus Criador
28. Com a criação do homem e da mulher à sua
imagem e semelhança, Deus coroa e leva à perfeição
a obra das suas mãos: Ele chama-os a uma participação
especial do seu amor e do seu poder de Criador e de Pai, mediante
uma cooperação livre e responsável deles na
transmissão do dom da vida humana: «Deus abençoou-os
e disse-lhes: "crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai
a terra"»,
Assim a tarefa fundamental da família é o serviço
à vida. É realizar, através da história,
a bênção originária do Criador, transmitindo
a imagem divina pela geração de homem a homem.
A fecundidade é o fruto e o sinal do amor conjugal, o testemunho
vivo da plena doação recíproca dos esposos:
«O autêntico culto do amor conjugal e toda a vida familiar
que dele nasce, sem pôr de lado os outros fins do matrimónio,
tendem a que os esposos, com fortaleza de animo, estejam dispostos
a colaborar com o amor do Criador e Salvador, que por meio deles
aumenta cada dia mais e enriquece a família»,
A fecundidade do amor conjugal não se restringe somente à
procriação dos filhos, mesmo que entendida na dimensão
especificamente humana: alarga-se e enriquece-se com todos aqueles
frutos da vida moral, espiritual e sobrenatural que o pai e a mãe
são chamados a doar aos filhos e, através dos filhos,
à Igreja e ao mundo.
A doutrina e a norma sempre antigas e sempre novas da Igreja
29. Exactamente porque o amor dos cônjuges é uma participação
singular no mistério da vida e no amor do próprio
Deus, a Igreja tem consciência de ter recebido a missão
especial de guardar e de proteger a altíssima dignidade do
matrimónio e a gravíssima responsabilidade da transmissão
da vida humana.
Desta maneira, na continuidade com a tradição viva
da comunidade eclesial através da história, o Concílio
Vaticano II e o magistério do meu Predecessor Paulo VI, expresso
sobretudo na encíclica Hamanae Vitae, transmitiram aos nossos
tempos um anúncio verdadeiramente profético, que reafirma
e repõe, com clareza, a doutrina e a norma sempre antigas
e sempre novas da Igreja sobre o matrimónio e sobre a transmissão
da vida humana.
Por isso, os Padres Sinodais declaram textualmente na última
Assembleia: «Este Sacro Sínodo reunido em união
de fé com o Sucessor de Pedro, sustenta firmemente o que
foi proposto pelo Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes,
50 e, depois, pela encíclica Humanae Vitae, e em particular
que o amor conjugal deve ser plenamente humano, exclusivo e aberto
a nova vida (Humanae Vitae, 11 e cfr. 9 e 12)».
A Igreja está do lado da vida
30. A doutrina da Igreja coloca-se hoje numa situação
social e cultural que a torna mais difícil de ser compreendida
e ao mesmo tempo mais urgente e insubstituível para promover
o verdadeiro bem do homem e da mulher.
De facto o progresso científico-técnico que o homem
contemporaneo amplia continuamente no domínio sobre a natureza,
não só desenvolve a esperança de criar uma
humanidade nova e melhor, mas gera também uma sempre mais
profunda angústia sobre o futuro. Alguns perguntam-se se
viver é bom ou se não teria sido melhor nem sequer
ter nascido. Duvidam, portanto, da liceidade de chamar outros à
vida, que talvez amaldiçoarão a sua existência
num mundo cruel, cujos terrores nem sequer são previsíveis.
Outros pensam que são os únicos destinatários
das vantagens da técnica e excluem os demais, impondo-lhes
meios contraceptivos ou técnicas ainda piores. Outros ainda,
manietados como estão pela mentalidade consumística
e com a única preocupação de um aumento contínuo
dos bens materiais, acabam por não chegar a compreender e
portanto por rejeitar a riqueza espiritual de uma nova vida humana.
A razão última destas memtalidades é a ausência
de Deus do coração dos homens, cujo amor só
por si é mais forte do que todos os possíveis medos
do mundo e tem o poder de os vencer.
Nasceu assim uma mentalidade contra a vida (anti-life mentality),
como emerge de muitas questões actuais: pense-se, por exemplo,
num certo panico derivado dos estudos dos ecólogos e dos
futurólogos sobre a demografia, que exageram, às vezes,
o perigo do incremento demográfico para a qualidade da vida.
Mas a Igreja crê firmemente que a vida humana, mesmo se débil
e com sofrimento, é sempre um esplêndido dom do Deus
da bondade. Contra o pessimismo e o egoísmo que obscurecem
o mundo, a Igreja está do lado da vida: e em cada vida humana
sabe descobrir o esplendor daquele «Sim», daquele «Amém»
que é o próprio Cristo. Ao «não»
que invade e aflige o mundo, contrapõe este «Sim»
vivente, defendendo deste modo o homem e o mundo de quantos insidiam
e mortificam a vida.
A Igreja é chamada a manifestar novamente a todos, com uma
firme e mais clara convicção, a vontade de promover,
com todos os meios e de defender contra todas as insídias
a vida humana, em qualquer condição e estado de desenvolvimento
em que se encontre.
Por tudo isto a Igreja condena como ofensa grave à dignidade
humana e à justiça todas aquelas actividades dos governos
ou de outras autoridades públicas, que tentam limitar por
qualquer modo a liberdade dos cônjuges na decisão sobre
os filhos. Consequentemente qualquer violência exercitada
por tais autoridades em favor da contracepção e até
da esterilização e do aborto procurado, é absolutamente
de condenar e de rejeitar com firmeza. Do mesmo modo é de
reprovar como gravemente injusto o facto de nas relações
internacionais, a ajuda económica concedida para a promoção
dos povos ser condicionada a programas de contracepção,
esterilização e aborto procurado.
Para que o plano divino se realize sempre mais plenamente
31. A Igreja está sem dúvida consciente dos múltiplos
e complexos problemas que hoje em muitos países envolvem
os cônjuges no seu dever de transmitir responsavelmente a
vida. Reconhece também o grave problema do incremento demográfico,
como se apresenta nas diversas partes do mundo, e as relativas implicações
morais.
A Igreja considera, todavia, que uma reflexão aprofundada
de todos os aspectos de tais problemas ofereça uma nova e
mais forte conflrmação da importância da doutrina
autêntica sobre a regulação da natalidade, reproposta
no Concílio Vaticano II e na encíclica Humanae Vitae.
Por isto, juntamente com os Padres Sinodais, sinto o dever de dirigir
um urgente convite aos teólogos a fim de que, unindo as suas
forças para colaborar com o Magistério hierárquico,
se empenhem em iluminar cada vez melhor os fundamentos bíblicos,
as motivações éticas e as razões personalísticas
desta doutrina. Será assim possível, no contexto de
uma exposição organica, tornar a doutrina da Igreja
sobre este tema fundamental verdadeiramente acessível a todos
os homens de boa vontade, favorecendo uma compreensão cada
dia mais luminosa e profunda: desta forma o plano divino poderá
ser sempre mais plenamente cumprido para a salvação
do homem e para a glória do Criador.
A tal respeito, o empenho concorde dos teólogos, inspirado
pela adesão convencida ao Magistério, que é
o único guia autêntico do Povo de Deus, apresenta particular
urgência mesmo em razão da visão do homem que
a Igreja propõe: dúvidas ou erros no campo matrimoni
al ou familiar implicam um grave obscurecer-se da verdade integral
sobre o homem numa situação cultural já tão
frequentemente confusa e contraditória O contributo de iluminação
e de investigação, que os teólogos são
chamados a oferecer no cumprimento da sua missão específica,
tem um valor incomparável e representa um serviço
singular, altamente meritório, à família e
à humanidade.
Na visão integral do homem e da sua vocação
32. No contexto de uma cultura que deforma gravemente ou chega até
a perder o verdadeiro significado da sexualidade humana, porque
a desenraíza da sua referência essencial à pessoa,
a Igreja sente como mais urgente e insubstituível a sua missão
de apresentar a sexualidade como valor e tarefa de toda a pessoa
criada, homem e mulher, à imagem de Deus.
Nesta perspectiva o Concílio Vaticano II afirmou claramente
que «quando se trata de conciliar o amor conjugal com a transmissão
responsável da vida, a moralidade do comportamento não
depende apenas da sinceridade da intenção e da apreciação
dos motivos; deve também determinar-se por critérios
objectivos, tomados da natureza da pessoa e dos seus actos; critérios
que respeitam, num contexto de autêntico amor, o sentido da
mútua doação e da procriação
humana. Tudo isto só é possível se se cultivar
sinceramente a virtude da castidade conjugal».
É exactamente partindo da «visão integral do
homem e da sua vocação, não só natural
e terrena, mas também sobrenatural e eterna», que Paulo
VI afirmou que a doutrina da Igreja «se funda na conexão
inseparável, que Deus quis e que o homem não pode
quebrar por sua iniciativa, entre os dois significados do acto conjugal:
o significado unitivo e o significado procriativo», E conclui
reafirmando que é de excluir, como intrinsecamente desonesta,
«toda a acção que, ou em previsão do
acto conjugal, ou na sua realização, ou no desenvolvimento
das suas consequências naturais, se proponha, como fim ou
como meio, tornar a procriação impossível».
Quando os cônjuges, mediante o recurso à contracepção,
separam estes dois significados que Deus Criador inscreveu no ser
do homem e da mulher e no dinamismo da sua comunhão sexual,
comportam-se como «árbitros» do plano divino
e «manipulam» e aviltam a sexualidade humana, e com
ela a própria pessoa e a do cônjuge, alterando desse
modo o valor da doação «total». Assim,
à linguagem nativa que exprime a recíproca doação
total dos cônjuges, a contracepção impõe
uma linguagem objectivamente contradictória, a do não
doar-se ao outro: deriva daqui, não somente a recusa positiva
de abertura à vida, mas também uma falsificação
da verdade interior do amor conjugal, chamado a doar-se na totalidade
pessoal.
Quando pelo contrário os cônjuges, mediante o recurso
a períodos de infecundidade, respeitam a conexão indivisível
dos significados unitivo e procriativo da sexualidade humana, comportam-se
como «ministros» de plano de Deus e «usufruem»
da sexualidade segundo o dinamismo originário da doação
«total», se manipulações e alterações.
À luz da experiência mesma de tantos casais e dos dados
das diversas ciências humanas, a reflexão teológica
pode receber e é chamada a aprofundar a diferenca antropológica
e ao mesmo tempo moral, que existe entre a contracepção
e o recurso aos ritmos temporais: trata-se de uma diferença
bastante mais vasta e profunda de quanto habitualmente se possa
pensar e que, em última análise, envolve duas concepções
da pessoa e da sexualidade humana irredutíveis entre si.
A escolha dos ritmos naturais, de facto, comporta a aceitação
do ritmo biológico da mulher, e com isto também a
aceitação do diálogo, do respeito recíproco,
da responsabilidade comum, do domínio de si. Acolher, depois,
o tempo e o diálogo significa reconhecer o carácter
conjuntamente espiritual e corpóreo da comunhão conjugal,
como também viver o amor pessoal na sua exigência de
fidelidade. Neste contexto o casal faz a experiência da comunhão
conjugal enriquecida daqueles valores de ternura e afectividade,
que constituem o segredo profundo da sexualidade humana, mesmo na
sua dimensão física. Desta maneira a sexualidade é
respeitada e promovida na sua dimensão verdadeira e plenamente
humana, não sendo nunca «usada» como um «objecto»
que, dissolvendo a unidade pessoal da alma e do corpo, fere a própria
criação de Deus na relação mais íntima
entre a natureza e a pessoa.
A Igreja Mestra e Mãe para os cônjuges em dificuldade
33. Também no campo da moral conjugal a Igreja é e
age como Mestra e Mãe.
Como Mestra, ela não se cansa de proclamar a norma moral
que deve guiar a transmissão responsável da vida.
De tal norma a Igreja não é, certamente, nem a autora
nem o juiz. Em obediência à verdade que é Cristo,
cuja imagem se reflecte na natureza e na dignidade da pessoa humana,
a Igreja interpreta a norma moral e propõe-na a todos os
homens de boa vontade, sem esconder as suas exigências de
radicalidade e de perfeição.
Como Mãe, a Igreja está próxima dos muitos
casais que se encontram em dificuldade sobre este importante ponto
da vida moral: conhece bem a sua situação, frequentemente
muito árdua e às vezes verdadeiramente atormentada
por dificuldades de toda a espécie, não só
individuais mas tambem sociais; sabe que muitos cônjuges encontram
dificuldades não só para a realização
concreta mas também para a própria compreensão
dos valores ínsitos na norma moral.
Mas é a mesma e única Igreja a ser ao mesmo tempo
Mestra e Mãe. Por isso a Igreja nunca se cansa de convidar
e de encorajar para que as eventuais dificuldades conjugais sejam
resolvidas sem nunca falsificar e comprometer a verdade: ela está
de facto convencida de que não pode existir verdadeira contradição
entre a lei divina de transmitir a vida e a de favorecer o autêntico
amor conjugal. Por isso, a pedagogia concreta da Igreja deve estar
sempre ligada e nunca separada da sua doutrina. Repito, portanto,
com a mesmíssima persuasão do meu Predecessor: «Não
diminuir em nada a doutrina salutar de Cristo é eminente
forma de caridade para com as almas».
Por outro lado, a autêntica pedagogia eclesial revela o seu
realismo e a sua sabedoria só desenvolvendo um empenhamento
tenaz e corajoso no criar e sustentar todas aquelas condições
humanas - psicológicas, morais e espirituais - que são
indispensáveis para compreender e viver o valor e a norma
moral.
Não há dúvida de que entre estas condições
devem elencar-se a constância e a paciência, a humildade
e a fortaleza de espirito, a filial confiança em Deus e na
sua graça, o recurso frequente à oração
e aos sacramentos da Eucaristia e da reconciliação.
Assim fortalecidos, os cônjuges cristãos poderão
manter viva a consciência do influxo singular que a graça
do sacramento do matrimónio exerce sobre todas as realidades
da vida conjugal, e, portanto, também sobre a sua sexualidade:
o dom do Espirito, acolhido e correspondido pelos cônjuges,
ajuda-os a viver a sexualidade humana segundo o plano de Deus e
como sinal do amor unitivo e fecundo de Cristo pela Igreja.
Mas, entre as condições necessárias, entra
também o conhecimento da corporeidade e dos ritmos de fertilidade.
Em tal sentido, é preciso fazer tudo para que um igual conhecimento
se torne acessível a todos os cônjuges, e, antes ainda
às jovens, mediante uma informação e educação
clara, oportuna e séria, feita por casais, médicos
e peritos. O conhecimento deve conduzir à educação
para o autocontrole: daqui a absoluta necessidade da virtude da
castidade e da permanente educaçao para ela. Segundo a visão
cristã, a castidade não significa de modo nenhum nem
a recusa nem a falta de estima pela sexualidade humana: ela significa
antes a energia espiritual que sabe defender o amor dos perigos
do egoísmo e da agressividade e sabe voltá-lo para
a sua plena realização.
Paulo VI, com profundo intuito de sabedoria e de amor, não
fez outra coisa senão dar voz à experiência
de tantos casais quando na sua encíclica escreveu: «O
domínio do instinto, mediante a razão e a vontade
livre, impõe sem dúvida uma ascese para que as manifestações
afectivas da vida conjugal sejam segundo a ordem recta e particularmente
para a observância da continência periódica.
Mas esta disciplina própria da pureza dos esposos, muito
longe de prejudicar o amor conjugal, confere-lhe pelo contrário
um mais alto valor humano. Isto exige um esforço contínuo,
mas graças ao seu benéfico influxo, os cônjuges
desenvolvem integralmente a sua personalidade, enriquecendo-se de
valores espirituais: aquela traz à vida familiar frutos de
serenidade e de paz e facilita a solução de outros
problemas; favorece a atenção para com o consorte,
ajuda os esposos a superar o egoísmo, inimigo do amor, e
aprofunda o sentido da responsabilidade deles no cumprimento dos
seus deveres. Os pais adquirem então a capacidade de uma
influência mais profunda e eficaz na educação
dos filhos».
O itinerário moral dos esposos
34. É sempre muito importante possuir uma recta concepção
da ordem moral, dos seus valores e das suas normas: a importância
aumenta quando se tornam mais numerosas e graves as dificuldades
para as respeitar.
Exactamente porque revela e propõe o desígnio de Deus
Criador, a ordem moral não pode ser algo de mortificante
para o homem e de impessoal; pelo contrário, respondendo
às exigências mais profundas do homem criado por Deus,
põe-se ao serviço da sua plena humanidade, com o amor
delicado e vinculante com o qual Deus mesmo inspira, sustenta e
guia cada criatura para a felicidade.
Mas o homem, chamado a viver responsavelmente o plano sapiente e
amoroso de Deus, é um ser histórico, que se constrói,
dia a dia, com numerosas decisões livres: por isso ele conhece,
ama e cumpre o bem moral segundo etapas de crescimento.
Também os cônjuges, no âmbito da vida moral,
são chamados a um contínuo caminhar, sustentados pelo
desejo sincero e operante de conhecer sempre melhor os valores que
a lei divina guarda e promove, pela vontade recta e generosa de
os encarnar nas suas decisões concretas. Eles, porém,
não podem ver a lei só como puro ideal a conseguir
no futuro, mas devem considerá-la como um mandato de Cristo
de superar cuidadosamente as dificuldades. Por isso a chamada «lei
da graduação» ou caminho gradual não
pode identificar-se com a "graduação da lei",
como se houvesse vários graus e várias formas de preceito
na lei divina para homens em situações diversas. Todos
os cônjuges são chamados, segundo o plano de Deus,
à santidade no matrimónio e esta alta vocação
realiza-se na medida em que a pessoa humana está em grau
de responder ao mandato divino com espírito sereno, confiando
na graça divina e na vontade própria». Na mesma
linha a pedagogia da Igreja compreende que os cônjuges antes
de tudo reconheçam claramente a doutrina da Humanae Vitae
como normativa para o exercício da sexualidade e sinceramente
se empenhem em pôr as condições necessárias
para a observar.
Esta pedagogia, como sublinhou o Sínodo, compreende toda
a vida conjugal. Por isso a obrigação de transmitir
a vida deve integrar-se na missão global da totalidade da
vida cristã, a qual, sem a cruz, não pode chegar à
ressurreição. Em semelhante contexto compreende-se
como não se possa suprimir da vida familiar o sacrifício,
mas antes se deva aceitá-lo com o coração para
que o amor conjugal se aprofunde e se torne fonte de alegria íntima.
Este caminho comum exige reflexão, informação,
instrução idónea dos sacerdotes, dos religiosos
e dos leigos que estão empenhados na pastoral familiar: todos
eles poderão ajudar os cônjuges no itinerário
humano e espiritual que comporta em si a consciência do pecado,
o sincero empenho de observar a lei moral, o ministério da
reconciliação. Deve também ser recordado como
na intimidade conjugal estão implicadas as vontades das duas
pessoas, chamadas a uma harmonia de mentalidade e comportamento:
isto exige não pouca paciência, simpatia e tempo. De
singular importância neste campo é a unidade dos juízos
morais e pastorais dos sacerdotes: tal unidade deve cuidadosamente
ser procurada e assegurada, para que os fiéis não
tenham que sofrer problemas de consciência.
O caminho dos cônjuges será portanto facilitado se,
na estima da doutrina da Igreja e na confiança na graça
de Cristo, ajudados e acompanhados pelos pastores e pela inteira
comunidade eclesial, descobrirem e experimentarem o valor da libertação
e da promoção do amor autêntico, que o Evangelho
oferece e o mandamento do Senhor propõe.
Suscitar convicções e oferecer uma ajuda concreta
35. Diante do problema de uma honesta regulação da
natalidade, a comunidade eclesial, no tempo presente, deve assumir
como seu dever suscitar convicções e oferecer uma
ajuda concreta a quantos quiserem viver a paternidade e a maternidade
de modo verdadeiramente responsável.
Neste campo, enquanto se congratula com os resultados conseguidos
pelas investigações científicas de um conhecimento
mais preciso dos ritmos de fertilidade feminina e estimula uma mais
decisiva e ampla extensão de tais estudos, a Igreja cristã
não pode não solicitar com renovado vigor a responsabilidade
de quantos - médicos, peritos, conselheiros conjugais, educadores,
casais - podem efectivamente ajudar os cônjuges a viver o
seu amor com respeito pela estrutura e pelas finalidades do acto
conjugal que o exprime. Isto quer dizer um empenho mais vasto, decisivo
e sistemático, para fazer conhecer, apreciar e aplicar os
métodos naturais de regulação da fertilidade.
Um testemunho precioso pode e deve ser dado por aqueles esposos
que, mediante o comum empenho na continência periódica,
chegaram a uma responsabilidade pessoal mais madura em relação
ao amor e à vida. Como escrevia Paulo VI: «a esses
confia o Senhor a tarefa de fazer visível aos homens a santidade
e a suavidade da lei que une o amor mútuo dos esposos e a
cooperação deles com o amor de Deus autor da vida
humana».
2) A educação
O direito-dever dos pais de educar
36. O dever de educar mergulha as raízes na vocação
primordial dos cônjuges à participação
na obra criadora de Deus: gerando no amor e por amor uma nova pessoa,
que traz em si a vocação ao crescimento e ao desenvolvimento,
os pais assumem por isso mesmo o dever de a ajudar eficazmente a
viver uma vida plenamente humana. Como recordou o Concílio
Vaticano II: «Os pais, que transmitiram a vida aos filhos,
têm uma gravíssima obrigação de educar
a prole e, por isso, devem ser reconhecidos como seus primeiros
e principais educadores. Esta função educativa é
de tanto peso que, onde não existir, dificilmente poderá
ser suprida. Com efeito, é dever dos pais criar um ambiente
de tal modo animado pelo amor e pela piedade para com Deus e para
com os homens que favoreça a completa educação
pessoal e social dos filhos. A família é, portanto,
a primeira escola das virtudes sociais de que as sociedades têm
necessidade».
O direito-dever educativo dos pais qualifica-se como essencial,
ligado como está à transmissão da vida humana;
como original e primário, em relação ao dever
de educar dos outros, pela unicidade da relação de
amor que subsiste entre pais e filhos; como insubstituível
e inalienável, e portanto, não delegável totalmente
a outros ou por outros usurpável.
Para além destas características, não se pode
esquecer que o elemento mais radical, que qualifica o dever de educar
dos pais é o amor paterno e materno, o qual encontra na obra
educativa o seu cumprimento ao tornar pleno e perfeito o serviço
à vida: o amor dos pais de fonte torna-se alma e, portanto,
norma, que inspira e guia toda a acção educativa concreta,
enriquecendo-a com aqueles valores de docilidade, constância,
bondade, serviço, desinteresse, espírito de sacrifício,
que são o fruto mais precioso do amor.
Educar para os valores essenciais da vida humana
37. Embora no meio das dificuldades da obra educativa, hoje muitas
vezes agravada, os pais devem, com confiança e coragem, formar
os filhos para os valores essenciais da vida humana. Os filhos devem
crescer numa justa liberdade diante dos bens materiais, adoptando
um estilo de vida simples e austero, convencidos de que «o
homem vale mais pelo que é do que pelo que tem»
Numa sociedade agitada e desagregada por tensões e conflitos
em razão do violento choque entre os diversos individualismos
e egoísmos, os filhos devem enriquecer-se não só
do sentido da verdadeira justiça que, por si só conduz
ao respeito pela dignidade pessoal de cada um, mas também
e, ainda mais, do sentido do verdadeiro amor, como solicitude sincera
e serviço desinteressado para com os outros, em particular
os mais pobres e necessitados. A família é a primeira
e fundamental escola de sociabilidade: enquanto comunidade de amor,
ela encontra no dom de si a lei que a guia e a faz crescer. O dom
de si, que inspira o amor mútuo dos cônjuges, deve
por-se como modelo e norma daquele que deve ser actuado nas relações
entre irmãos e irmãs e entre as diversas gerações
que convivem na família. E a comunhão e a participação
quotidianamente vividas na casa, nos momentos de alegria e de dificuldade,
representam a mais concreta e eficaz pedagogia para a inserção
activa, responsável e fecunda dos filhos no mais amplo horizonte
da sociedade.
A educação para o amor como dom de si constitui também
a premissa indispensável para os pais chamados a oferecer
aos filhos uma clara e delicada educação sexual. Diante
de uma cultura que «banaliza» em grande parte a sexualidade
humana, porque a interpreta e a vive de maneira limitada e empobrecida
coligando-a unicamente ao corpo e ao prazer egoístico, o
serviço educativo dos pais deve dirigir-se com firmeza para
uma cultura sexual que seja verdadeira e plenamente pessoal. A sexualidade,
de facto, é uma riqueza de toda a pessoa - corpo, sentimento
e alma - e manifesta o seu significado íntimo ao levar a
pes soa ao dom de si no amor.
A educação sexual, direito e dever fundamental dos
pais, deve actuar-se sempre sob a sua solícita guia, quer
em casa quer nos centros educativos escolhidos e controlados por
eles. Neste sentido a Igreja reafirma a lei da subsidiariedade,
que a escola deve observar quando coopera na educação
sexual, ao imbuir-se do mesmo espírito que anima os pais.
Neste contexto é absolutamente irrenunciável a educação
para a castidade como virtude que desenvolve a autêntica maturidade
da pessoa e a torna capaz de respeitar e promover o «significado
nupcial» do corpo. Melhor, os pais cristãos reservarão
uma particular atencão e cuidado, discernindo os sinais da
chamada de Deus, para a educação para a virginidade
como forma suprema daquele dom de si que constitui o sentido próprio
da sexualidade humana.
Pelos laços estreitos que ligam a dimensão sexual
da pessoa e os seus valores éticos, o dever educativo deve
conduzir os filhos a conhecer e a estimar as normas morais como
necessária e preciosa garantia para um crescimento pessoal
responsável na sexualidade humana.
Por isto a Igreja opõe-se firmemente a uma certa forma de
informação sexual, desligada dos princípios
morais, tão difundida, que não é senão
uma introdução à experiência do prazer
e um estímulo que leva à perda - ainda nos anos da
inocência - da serenidade, abrindo as portas ao vício.
A missão educativa e o sacramento do matrimónio
38 Para os pais cristãos a missão educativa, radicada
como já se disse na sua participação na obra
criadora de Deus, tem uma nova e específica fonte no sacramento
do matrimónio, que os consagra para a educação
propriamente cristã dos filhos, isto é, que os chama
a participar da mesma autoridade e do mesmo amor de Deus Pai e de
Cristo Pastor, como também do amor materno da Igreja, e os
enriquece de sabedoria, conselho, fortaleza e de todos os outros
dons do Espírito Santo para ajudarem os filhos no seu crescimento
humano e cristão.
O dever educativo recebe do sacramento do matrimónio a dignidade
e a vocação de ser um verdadeiro e próprio
«ministério» da Igreja ao serviço da edificação
dos seus membros. Tal é a grandeza e o esplendor do ministério
educativo dos pais cristãos, que Santo Tomás não
hesita em compará-lo ao ministério dos sacerdotes:
«Alguns propagam e conservam a vida espiritual com um ministério
unicamente espiritual: é a tarefa do sacramento da ordem;
outros fazem-no quanto à vida corporal e espiritual o que
se realiza com o sacramento do matrimónio, que une o homem
e a mulher para que tenham descendência e a eduquem para o
culto de Deus».
A consciência viva e atenta da missão recebida no sacramento
do matrimónio ajudará os pais cristãos a dedicarem-se
com grande serenidade e confiança ao servico de educar os
filhos e, ao mesmo tempo, com sentido de responsabilidade diante
de Deus que os chama e os manda edificar a Igreja nos filhos. Assim
a família dos baptizados, convocada qual igreja doméstica
pela Palavra e pelo Sacramento, torna-se, conjuntamente, como a
grande Igreja, mestra e mãe.
A primeira experiência de Igreja
39. A missão de educar exige que os pais cristãos
proponham aos filhos todos os conteúdos necessários
para o amadurecimento gradual da personalidade sob o ponto de vista
cristão e eclesial. Retomarão então as linhas
educativas acima recordadas, com o cuidado de mostrar aos filhos
a que profundidade de significado a fé e a caridade de Jesus
Cristo sabem conduzir. Para além disso, a certeza de que
o Senhor lhes coníia o crescimento de um filho de Deus, de
um irmão de Cristo, de um templo do Espírito Santo,
de um membro da Igreja, ajudará os pais cristãos no
seu dever de reforçar na alma dos filhos o dom da graça
divina.
O Concílio Vaticano II precisa assim o conteúdo da
educação cristã: «Esta procura dar não
só a maturidade de pessoa humana... mas tende principalmente
a fazer com que os baptizados, er.quanto são introduzidos
gradualmente no conhecimento do mistério da salvação,
se tornem cada vez mais conscientes do dom da fé que receberam;
aprendam, principalmente na acção litúrgica,
a adorar a Deus Pai em espírito e verdade (cfr. Jo. 4, 23),
disponham-se a levar a própria vida segundo o homem novo
em justiça e santidade de verdade (Ef 4, 22-24); e assim
se aproximem do homem perfeito, da idade plena de Cristo (cfr. Ef.
4, 13) e colaborem no aumento do Corpo Místico. Além
disso, conscientes da sua vocação, habituem-se quer
a testemunhar a esperança que neles existe (cfr. 1 Ped. 3,
15), quer a ajudar a conformação cristã no
mundo».
Também o Sínodo, retomando e desenvolvendo as linhas
conciliares, apresentou a missão educativa da família
cristã como um verdadeiro ministério, através
do qual é transmitido e irradiado o Evangelho, ao ponto de
a mesma vida da família se tornar itinerário de fé
e, em certo modo, iniciação cristã e escola
para seguir a Cristo. Na família consciente de tal dom, como
escreveu Paulo VI, «todos os membros evangelizam e são
evangelizados».
Pela força do ministério da educação
os pais, mediante o testemunho de vida, são os primeiros
arautos do Evangelho junto dos filhos. A inda mais: rezando com
os filhos, dedicando-se com eles à leitura da Palavra de
Deus e inserindo-os no íntimo do Corpo - eucarístico
e eclesial - de Cristo mediante a iniciação cristã,
tornam-se plenamente pais, progenitores não só da
vida carnal, mas também daquela que, mediante a renovação
do Espírito, brota da Cruz e da ressurreição
de Cristo.
Para que os pais cristãos possam cumprir dignamente o seu
ministério educativo, os Padres Sinodais exprimiram o desejo
de que seja preparado um catecismo para uso da família, com
texto adequado, claro, breve e tal que possa ser facilmente assimilado
por todos. As conferências episcopais foram vivamente convidadas
a empenharem-se na realização deste catecismo.
Relações com outras forças educativas
40. A família é a primeira, mas não a única
e exclusiva comunidade educativa: a dimensão comunitária,
civil e eclesial do homem exige e conduz a uma obra mais ampla e
articulada, que seja o fruto da colaboração ordenada
das diversas forças educativas. Estas forças são
todas elas necessárias, mesmo que cada uma possa e deva intervir
com a sua competência e o seu contributo próprio.
O dever educativo da família cristã tem consequentemente
um lugar bem importante na pastoral organica o que implica uma nova
forma de colaboração entre os pais e as comunidades
cristãs, entre os diversos grupos educativos e os pastores.
Neste sentido, a renovação da escola ca tólica
deve dar uma atenção especial quer aos pais dos alunos
quer à formação de uma perfeita comunidade
educadora.
Deve ser absolutamente assegurado o direito dos pais à escolha
de uma educação conforme à sua fé religiosa.
O Estado e a Igreja têm obrigação de prestar
às famílias todos os meios possíveis a fim
de que possam exercer adequadamente os seus deveres educativos.
Por isso, quer a Igreja quer o Estado devem criar e promover aquelas
instituições e actividades que as famílias
justamente reclamam. A ajuda deverá ser proporcional às
insuficiências das famílias. Portanto, todos os que
na sociedade ocupam postos de direcção escolar nunca
esqueçam que os pais foram constituídos pelo próprio
Deus como primeiros e principais educadores dos filhos, e que o
seu direito é absolutamente inalienável.
Mas, complementar ao direito, põe-se o grave dever dos pais
de se empenharem com profundidade numa relação cordial
e construtiva com os professores e os directores das escolas.
Se nas escolas se ensinam ideologias contrárias à
fé cristã, cada família juntamente com outras,
possivelmente mediante formas associativas, deve com todas as forças
e com sabedoria ajudar os jovens a não se afastarem da fé.
Neste caso, a família tem necessidade de especial ajuda da
parte dos pastores, que não poderão esquecer o direito
inviolável dos pais de confiar os seus filhos à comunidade
eclesial.
Um múltiplo serviço à vida
41. O amor conjugal fecundo exprime-se num serviço à
vida em variadas formas, sendo a geração e a educação
as mais imediatas, próprias e insubstituíveis. Na
realidade, cada acto de amor verdadeiro para com o homem testemunha
e aperfeiçoa a fecundidade espiritual da família,
porque é obediéncia ao profundo dinamismo interior
do amor como doação de si aos outros.
Nesta perspectiva, para todos rica de valor e de empenho, saberão
inspirar-se particularmente aqueles cônjuges que fazem a experiência
da esterilidade física.
As famílias cristãs, que na fé reconhecem todos
os homens como filhos do Pai comum dos céus, irão
generosamente ao encontro dos filhos das outras famílias,
sustentando-os e amando-os não como estranhos, mas como membros
da única família dos filhos de Deus. Os pais cristãos
terão assim oportunidade de alargar o seu amor para além
dos vínculos da carne e do sangue, alimentando os laços
que têm o seu fundamento no espírito e que se desenvolvem
no serviço concreto aos filhos de outras famílias,
muitas vezes necessitadas até das coisas mais elementares.
As famílias cristãs saberão viver uma maior
disponibilidade em favor da adopção e do acolhimento
de órfãos ou abandonados: enquanto estas crianças,
encontrando o calor afectivo de uma família, podem fazer
uma experiência cla carinhosa e próvida paternidade
de Deus, teste munhada pelos pais cristãos, e assim crescer
com serenidade e confiança na vida, a família inteira
enriquecer-se-á dos valores espirituais de uma mais ampla
fraternidade.
A fecundidade das famílias deve conhecer uma sua incessante
«criatividade», fruto maravilhoso do Espírito
de Deus, que abre os olhos do coração à descoberta
de novas necessidades e sofrimentos da nossa sociedade, e que infunde
coragem para as assumir e dar-lhes resposta. Apresenta-se às
famílias, neste quadro, um vastíssimo campo de acção:
com efeito, ainda mais preocupante que o abandono das crianças
é hoje o fenómeno da marginalização
social e cultural, que dur amente fere anciãos, doentes,
deficientes, toxicómanos, ex-presos, etc.
Desta maneira dilata-se enormemente o horizonte da paternidade e
da maternidade das famílias cristãs: o seu amor espiritualmente
fecundo é desafiado por estas e tantas outras urgências
do nosso tempo. Com as famílias e por meio delas, o Senhor
continua a ter «compaixão» das multidões.
III - A PARTICIPAÇÃO NO DESENVOLVIMENTO DA SOCIEDADE
A família, célula primeira e vital da sociedade
42. «Pois que o Criador de todas as coisas constituiu o matrimónio
princípio e fundamento da sociedade humana», a família
tornou-se a «célula primeira e vital da sociedade».
A família possui vínculos vitais e organicos com a
sociedade, porque constitui o seu fundamento e alimento contínuo
mediante o dever de serviço à vida: saem, de facto,
da família os cidadãos e na família encontram
a primeira escola daquelas virtudes sociais, que são a alma
da vida e do desenvolvimento da mesma sociedade.
Assim por força da suà natureza e vocação,
longe de fechar-se em si mesma, a família abre-se às
outras famílias e à sociedade, assumindo a sua tarefa
social.
A vida familiar como experiência de comunhão
e de participação
43.
A mesma experiência de comunhão e de participação,
que deve caracterizar a vida quotidiana da família, representa
o seu primeiro e fundamental contributo à sociedade.
As relações entre os membros da comunidade familiar
são inspiradas e guiadas pela lei da «gratuidade»
que, respeitando e favorecendo em todos e em cada um a dignidade
pessoal como único título de valor, se torna acolhimento
cordial, encontro e diálogo, disponibilidade desinteressada,
serviço generoso, solidariedade profunda.
A promoção de uma autêntica e madura comunhão
de pessoas na família torna-se a primeira e insubstituível
escola de sociabilidade, exemplo e estímulo para as mais
amplas relações comunitárias na mira do respeito,
da justiça, do diálogo, do amor.
Deste modo a família, como recordaram os Padres Sinodais,
constitui o lugar nativo e o instrumento mais eficaz de humanização
e de personalização da sociedade. Colabora de um modo
original e profundo na construção do mundo, tornando
possível uma vida propriamente humana, guardando e transmitindo
em particular as virtudes e «os valores». Como escreve
o Concílio Vaticano II, na família «congregam-se
as diferentes gerações que reciprocamente se ajudam
a alcançar uma sabedoria mais plena e a conciliar os direitos
pessoais com as outras exigências da vida social»,
Assim diante de uma sociedade que se arrisca a ser cada vez mais
despersonalizada e massificada, e, portanto, desumana e desumanizante,
com as resultantes negativas de tantas formas de «evasão»
- como, por exemplo, o alcoolismo, a droga e o próprio terrorismo
- a família possui e irradia ainda hoje energias formidáveis
capazes de arrancar o homem do anonimato, de o manter consciente
da sua dignidade pessoal, de o enriquecer de profunda humanidade
e de o inserir activamente com a sua unicidade e irrepetibilidade
no tecido da sociedade.
Função social e política
44. A função social da família não pode
certamente fechar-se na obra procriativa e educativa, ainda que
nessa encontre a primeira e insubstituível forma de expressão.
As famílias, quer cada uma por si quer associadas, podem
e devem portanto dedicar-se a várias obras de serviço
social, especialmente em prol dos pobres, e de qualquer modo de
todas aquelas pessoas e situações que a organização
previdencial e assistencial das autoridades públicas não
consegue atingir.
O contributo social da família tem uma originalidade própria,
que pode ser conhecida melhor e mais decisivamente favorecida, sobretudo
à medida que os filhos crescem, empenhando de facto o mais
possível todos os membros.
Em particular é de realçar a importância sempre
maior que na nossa sociedade assume a hospitalidade, em todas as
suas formas desde o abrir as portas da própria casa e ainda
mais do próprio coração aos pedidos dos irmãos,
ao empenho concreto de assegurar a cada família a sua casa,
como ambiente natural que a conserva e a faz crescer. Sobretudo
a família cristã é chamada a escutar a recomendação
do apóstolo: «Exercei a hospitalidade com solicitude»
e portanto a actuar, imitando o exemplo e compartilhando a caridade
de Cristo, o acolhimento do irmão necessitado: «Quem
der de beber a um destes pequeninos, ainda que seja somente um copo
de água fresca, por ser meu discípulo, em verdade
vos digo não perderá a sua recompensa»,
O dever social das famílias é chamado ainda a exprimir-se
sob forma de intervenção política: as famílias
devem com prioridade diligenciar para que as leis e as instituições
do Estado não só não ofendam, mas sustentem
e defendam positivamente os seus direitos e deveres. Em tal sentido
as famílias devem crescer na consciência de serem «protagonistas»
da chamada «política familiar» e assumir a responsabilidade
de transformar a sociedade: doutra forma as famílias serão
as primeiras vítimas daqueles males que se limitaram a observar
com indiferença. O apelo do Concílio Vaticano II para
que se supere a ética individualística tem também
valor para a família como tal.
A sociedade ao serviço da família
45. A íntima conexão entre a família e a sociedade,
como exige a abertura e a participação da família
na sociedade e no seu desenvolvimento, impõe também
que a sociedade não abandone o seu dever fundamental de respeitar
e de promover a família.
A família e a sociedade têm certamente uma função
complementar na defesa e na promoção do bem de todos
homens e de cada homem. Mas a sociedade, e mais especificamente
o Estado, devem reconhecer que a família é «uma
sociedade que goza de direito próprio e primordial»
e portanto nas suas relações com a família
são gravemente obrigados ao respeito do princípio
de subsidiariedade.
Por força de tal princípio o Estado não pode
nem deve subtrair às famílias tarefas que elas podem
igualmente desenvolver perfeitamente sós ou livremente associadas,
mas favorecer positivamente e solicitar o mais possível a
iniciativa responsável das famílias. Convencidas de
que o bem da família constitui um valor indispensável
e irrenunciável da comunidade civil, as autoridades públicas
devem fazer o possível por assegurar às famílias
todas aquelas ajudas - económicas, sociais, educativas, políticas,
culturais de que têm necessidade para fazer frente de modo
humano a todas as suas responsabilidades.
A carta dos direitos da família
46. O ideal de uma acção recíproca de auxílio
e de desenvolvimento entre a família e a sociedade encontra-se
muitas vezes, e em termos bastante graves, com a realidade de uma
separação, mais que de uma contraposição.
Com efeito, como continuamente denunciou o Sínodo, a situação
que numerosas famílias encontram em diversos países
é muito problemática, e até decididamente negativa:
instituições e leis que desconhecem injustamente os
direitos invioláveis da família e da mesma pessoa
humana, e a sociedade, longe de se colocar ao serviço da
família, agride-a com violência nos seus valores e
nas suas exigências fundamentais. Assim a família que,
segundo o desígno de Deus, é a célula base
da sociedade, sujeito de direitos e deveres antes do Estado e de
qualquer outra comunidade, encontra-se como vítima da sociedade,
dos atrasos e da lentidão das suas intervenções
e ainda mais das suas patentes injustiças.
Por tudo isto a Igreja defende aberta e fortemente os direitos da
família contra as intoleráveis usurpações
da sociedade e do Estado. De modo particular, os Padres Sinodais
recordam, entre outros, os seguintes direitos da família:
• o direito de existir e progredir como família, isto
é o direito de cada homem, mesmo o pobre, a fundar uma família
e a ter os meios adequados para a sustentar;
• o direito de exercer as suas responsabilidades no âmbito
de transmitir a vida e de educar os filhos;
• o direito à intimidade da vida conjugal e familiar;
• o direito à estabilidade do vínculo e da instituição
matrimonial;
• o direito de crer e de professar a própria fé,
e de a difundir;
• o direito de educar os filhos segundo as próprias
tradições e valores religiosos e culturais, com os
instrumentos, os meios e as instituições necessárias;
• o direito de obter a segurança física, social,
política, económica, especialmente tratando-se de
pobres e de enfermos;
• o direito de ter uma habitação digna a conduzir
convenientemente a vida familiar;
• o direito de expressão e representação
diante das autoridades públicas económicas, sociais
e culturais e outras inferiores, quer directamente quer através
de associações;
• o direito de criar associações com outras
famílias e instituições, para um desempenho
de modo adequado e solícito do próprio dever;
• o direito de proteger os menores de medicamentos prejudiciais,
da pornografia, do alcoolismo, etc mediante instituições
e legislações adequadas;
• o direito à distracção honesta que
favoreça também os valores da família;
• o direito das pessoas de idade a viver e morrer dignamente;
• o direito de emigrar como família para encontrar
vida melhor
A Santa Sé, acolhendo o pedido explícito do Sínodo,
terá o cuidado de aprofundar tais sugestões, elaborando
uma «Carta dos direitos da família» a propor
aos ambientes e às Autoridades interessadas.
Graça e responsabilidade da família cristã
47. O dever social próprio de cada família diz respeito,
por um título novo e original, à família cristã,
fundada sobre o sacramento do matrimónio. Assumindo a realidade
humana do amor conjugal com todas as suas consequências, o
sacramento habilita e empenha os cônjuges e os pais cristãos
a viver a sua vocação de leigos, e por tanto a «procurar
o Reino de Deus tratando das realidades temporais e ordenando-as
segundo Deus».
O dever social e político reentra naquela missão real
ou de serviço da qual os esposos cristãos participam
pela força do sacramento do matrimónio, recebendo
ao mesmo tempo um mandamento ao qual não podern subtrair-se
e uma graça que os sustenta e estimula.
Em tal modo a família cristã é chamada a oferecer
a todos o testemunho de uma dedicação generosa e desinteressada
pelos problemas sociais, mediante a «opção preferencial»
pelos pobres e marginalizados. Por isso, progredindo no caminho
do Senhor mediante uma predilecção especial para com
todos os pobres, deve cuidar especialmente dos esfomeados, dos indigentes,
dos anciãos, dos doentes, dos drogados, dos sem família.
Para uma nova ordem internacional
48. Diante da dimensão mundial que hoje caracteriza os vários
problemas sociais, a família vê alargar-se de modo
completamente novo o seu dever para com o desenvolvimento da sociedade:
trata-se também de uma cooperação para uma
nova ordem internacional, porque só na solidariedade mundial
se podem enfrentar e resolver os enormes e dramáticos problemas
da justiça no mundo, da liberdade dos povos, da paz da humanidade.
A comunhão espiritual das famílias cristãs,
radicadas na fé e esperança comuns e vivificadas pela
caridade, constitui uma energia interior que dá origem, difunde
e desenvolve justiça, reconciliação, fraternidade
e paz entre os homens. Como «pequena Igreja», a família
cristã é chamada, à semelhança da «grande
Igreja» a ser sinal de unidade para o mundo e a exercer deste
modo o seu papel profético, testemunhando o Reino e a paz
de Cristo, para os quais o mundo inteiro caminha.
As famílias cristãs poderão fazê-lo quer
através da sua obra educativa, oferecendo aos filhos um modelo
de vida fundada sobre os valores da verdade, da liberdade, da justiça
e do amor, quer com um empenho activo e responsável no crescimento
autenticamente humano da sociedade e das suas instituições,
quer mantendo de vários modos associações que
especificamente se dedicam aos problemas de ordem internacional.
IV - A PARTICIPAÇÃO
NA VIDA E NA MISSÃO DA IGREJA
A família no mistério da Igreja
49. Entre os deveres fundamentais da família cristã
estabelece-se o dever eclesial: colocar-se ao serviço da
edificação do Reino de Deus na história, mediante
a participação na vida e na missão da Igreja.
Para melhor compreender os fundamentos, os conteúdos e as
características de tal participação, ocorre
aprofundar os vínculos múltiplos e profundos que ligam
entre si a Igreja e a família cristã, e constituem
esta última como «uma Igreja em miniatura» (Ecclesia
domestica), fazendo com que esta, a seu modo, seja imagem viva e
representação histórica do próprio mistério
da Igreja.
É antes de tudo a Igreja Mãe que gera, educa, edifica
a família cristã, operando em seu favor a missão
de salvação que recebeu do Senhor. Com o anúncio
da Palavra de Deus, a Igreja revela à família cristã
a sua verdadeira identidade, o que ela é e deve ser segundo
o desígnio do Senhor; com a celébração
dos sacramentos, a Igreja enriquece e corrobora a família
cristã com a graça de Cristo em ordem à sua
santificação para a glória do Pai; com a renovada
proclamação do mandamento novo da caridade, a Igreja
anima e guia a família cristã ao serviço do
amor, a fim de que imite e reviva o mesmo amor de doação
e sacrifício, que o Senhor Jesus nutre pela humanidade inteira.
Por sua vez a família cristã está inserida
a tal ponto no mistério da Igreja que se torna participante,
a seu modo, da missão de salvacão própria da
Igreja: os cônjuges e os pais cristãos, em virtude
do sacramento, «têm assim, no seu estado de vida e na
sua ordem, um dom próprio no Povo de Deus». Por isso
não só «recebem» o amor de Cristo tornando-se
comunidade «salva», mas também são chamados
a «transmitir» aos irmãos o mesmo amor de Cristo,
tornando-se assim comunidade «salvadora». Deste modo,
enquanto é fruto e sinal da fecundidade sobrenatural da Igreja,
a família cristã torna-se símbolo, testemunho,
participação da maternidade da Igreja.
Uma função eclesial própria e original
50. A família cristã é chamada a tomar parte
viva e responsável na missão da Igreja de modo próprio
e original, colocando-se ao serviço da Igreja e da sociedade
no seu ser e agir, enquanto comunidade íntima de vida e de
amor.
Se a família cristã é comunidade, cujos vínculos
são renovados por Cristo mediante a fé e os sacramentos,
a sua participação na missão da Igreja deve
dar-se segundo uma modalidade comunitária: conjuntamente,
portanto, os cônjuges enquanto casal, os pais e os filhos
enquanto família, devem viver o seu serviço à
Igreja e ao mundo. Devem ser na fé «um só coração
e uma só alma», através do espírito apostólico
comum que os anima e mediante a colaboração que os
empenha nas obras de serviço à comunidade eclesial
e civil.
A família cristã, pois, edifica o Reino de Deus na
história mediante aquelas mesmas realidades quotidianas que
dizem respeito e contradistinguem a sua condição de
vida: é então no amor conjugal e familiar - vivido
na sua extraordinária riqueza de valores e exigências
de totalidade, unicidade, fidelidade e fecundidade - que se exprime
e se realiza a participação da família cristã
na missão profética, sacerdotal e real de Jesus Cristo
e da sua Igreja: o amor e a vida constituem portanto o núcleo
da missão salvífica da família cristã
na Igreja e pela Igreja
O Concílio Vaticano II recorda-o quando escreve: «Cada
família comunicará generosamente com as outras as
próprias riquezas espirituais. Por isso, a família
cristã, nascida de um matrimónio que é imagem
e participação da aliança de amor entre Cristo
e a Igreja, manifestará a todos a presença viva do
Salvador no mundo e a autêntica natureza da Igreja, quer por
meio do amor dos esposos, quer pela sua generosa fecundidade, unidade
e fidelidade, quer pela amável cooperação de
todos os seus membros».
Posto assim o fundamento da participação da família
cristã na missão eclesial, é agora o momento
de ilustrar o seu conteúdo na tríplice e unitária
referencia a Jesus Cristo Profeta, Sacerdote e Rei, apresentando
por isso a família cristã como 1) comunidade crente
e evangelizadora, 2) comunidade em diálogo com Deus, 3) comunidade
ao serviço do homem.
1) A Família cristã, comunidade crente e evangelizadora
A fé, descoberta e admiração do desígnio
de Deus sobre a família
51. Partícipe da vida e da missão da Igreja, que está
em religiosa escuta da Palavra de Deus e a proclama com firme confiança,
a família cristã vive a sua tarefa profética
acolhendo e anunciando a Palavra de Deus: torna-se assim, cada dia
mais comunidade crente e evangelizadora.
Também aos esposos e aos pais cristãos é pedida
a obediência da fé: são chamados a acolher a
Palavra do Senhor, que a eles revela a extraordinária novidade
- a Boa Nova - da sua vida conjugal e familiar, feita por Cristo
santa e santificante. De facto, somente na fé eles podem
descobrir e admirar com jubilosa gratidão a que dignidade
Deus quis elevar o matrimónio e a família, constituindo-os
sinal e lugar da aliança de amor entre Deus e os homens,
entre Jesus Cristo e a Igreja sua esposa.
A preparação para o matrimónio cristão
é já qualificada como um itinerário de fé:
põe-se, de facto, como ocasião privilegiada para que
os noivos descubram e aprofundem a fé recebida no baptismo
e alimentada com a educação cristã. Desta forma
reconhecem e acolhem livremente a vocação de seguir
o caminho de Cristo e de se pôr ao serviço do Reino
de Deus no estado matrimonial.
O momento fundamental da fé dos esposos é dado pela
celebração do sacramento do matrimónio, que
na sua natureza profunda é a proclamação, na
Igreja, da Boa-Nova sobre o amor conjugal: é Palavra de Deus
que «revela» e «cumpre» o sábio e
amoroso projecto que Deus tem sobre os esposos, introduzidos na
misteriosa e real participação do próprio amor
de Deus pela humanidade. Se em si mesma a celebração
sacramental do matrimónio é proclamação
da Palavra de Deus, enquanto os noivos são a título
vário protagonistas e celebrantes, deve ser uma «profissão
de fé» feita dentro da Igreja e com a Igreja comunidade
dos crentes.
Esta profissão de fé exige o seu prolongamento no
decurso da vida dos esposos e da família: Deus, que de facto,
chamou os esposos «ao» matrimónio, continua a
chamá-los «no» martimónio. Dentro e através
dos factos, dos problemas, das dificuldades, dos acontecimentos
da existência de todos os dias, Deus vai-lhes revelando e
propondo as «exigências» concretas da sua participação
no amor de Cristo pela Igreja em relação com a situação
particular - familiar, social e eclesial - na qual se encontram.
A descoberta e a obediência ao desígnio de Deus devem
fazer-se «conjuntamente» pela comunidade conjugal e
familiar, através da mesma experiência humana do amor
vivido do Espírito de Cristo entre os esposos, entre os pais
e os filhos
Por isto, como a grande Igreja, assim também a pequena Igreja
doméstica tem necessidade de ser contínua e intensamente
evangelizada: daqui o seu dever de educação permanente
na fé.
O ministério de evangelização da família
cristã
52. Na medida em que a família cristã acolhe o Evangelho
e amadurece na fé torna-se comunidade evangelizadora. Escutemos
de novo Paulo VI: «A família, como a Igreja, deve ser
um lugar onde se transmite o Evangelho e donde o Evangelho irradia.
Portanto no interior de uma família consciente desta missão,
todos os componentes evangelizam e são evangelizados. Os
pais não só comunicam aos filhos o Evangelho, mas
podem também receber deles o mesmo Evangelho profundamente
vivido. Uma tal família torna-se, então, evangelizadora
de muitas outras famílias e do ambiente no qual está
inserida»,
Como repetiu o Sínodo, retomando o meu apelo lançado
em Puebla, a futura evangelização depende em grande
parte da Igreja doméstica. Esta missão apostólica
da família tem as suas raízes no baptismo e recebe
da graça sacramental do matrimónio uma nova força
para transmitir a fé, para santificar e transformar a sociedade
actual segundo o desígnio de Deus.
A família cristã, sobretudo hoje, tem uma especial
vocação para ser testemunha da aliança pascal
de Cristo, mediante a irradiação constante da alegria
do amor e da certeza da esperança, da qual deve tornar-se
reflexo: «A família cristã proclama em alta
voz as virtudes presentes do Reino de Deus e a esperança
na vida bem-aventurada»,
A absoluta necessidade da catequese familiar surge com singular
vigor em determinadas situações que infelizmente a
Igreja experimenta em diversos lugares: «Onde uma legislação
anti-religiosa pretende impedir até a educação
na fé, onde uma incredulidade difundida ou um secularismo
invasor tornam praticamente impossível um verdadeiro crescimento
religioso, aquela que poderia ser chamada "Igreja doméstica"
fica como único ambiente, no qual crianças e jovens
podem receber uma autêntica catequese».
Um serviço eclesial
53. O ministério de evangelização dos pais
cristãos é original e insubstituível: assume
as conotações típicas da vida familiar, entrelaçada
como deveria ser com o amor, com a simplicidade, com o sentido do
concreto e com o testemunho do quotidiano.
A família deve formar os filhos para a vida, de modo que
cada um realize plenamente o seu dever segundo a vocação
recebida de Deus. De facto, a família que está aberta
aos valores do transcendente, que serve os irmãos na alegria,
que realiza com generosa fidelidade os seus deveres e tem consciência
da sua participação quotidiana no mistério
da Cruz gloriosa de Cristo, torna-se o primeiro e o melhor seminário
da vocação à vida consagrada ao Reino de Deus.
O ministério de evangelização e de catequese
dos pais deve acompanhar também a vida dos filhos nos anos
da adolescência e da juventude, quando estes, como muitas
vezes acontece, contestam ou mesmo rejeitam a fé cristã
recebida nos primeiros anos da vida. Como na Igreja a obra de evangelização
nunca se separa do sofrimento do apóstolo, assim na família
cristã os pais devem enfrentar com coragem e com grande serenidade
de animo as dificuldades que o seu ministério de evangelização
algumas vezes encontra nos próprios filhos.
Não se deverá esquecer que o serviço dos cônjuges
e pais cristãos a favor do Evangelho é essencialmente
um serviço eclesial, isto é, reentra no contexto da
Igreja inteira, qual comunidade evangelizada e evangelizadora. Enquanto
radicado e derivado da única missão da Igreja e enquanto
ordenado à edificação do único Corpo
de Cristo, o ministério de evangelização e
de catequese da Igreja doméstica deve permanecer em comunhão
intima e deve harmonizar-se responsavelmente com todos os outros
serviços de evangelização e de catequese presentes
e operantes na comunidade eclesial, quer diocesana quer paroquial.
Pregar o Evangelho a toda a criatura
54. A universalidade sem fronteiras é o horizonte próprio
da evangelização, animada interiormente pelo impulso
missionário: é de facto a resposta explicita e inequivoca
ao mandato de Cristo: «Ide pelo mundo inteiro e anunciai a
Boa Nova a toda a criatura».
Também a fé e a missão evangelizadora da família
cristã prosseguem este alento missionário católico.
O sacramento do matrimónio que retoma e volta a propor o
dever, radicado no baptismo e na confirmação, de defender
e difundir a fé, constitui os cônjuges e os pais cristãos
testemunhas de Cristo «até aos confins do mundo»,
verdadeiros e próprios «missionários»
do amor e da vida.
Uma certa forma de actividade missionária pode desenvolver-se
já na mesma família. Isto acontece quando algum dos
seus membros não tem fé ou não a pratica com
coerência. Em tal caso, os familiares devem oferecer-lhe um
testemunho de vida de fé que o estimule e encoraje no caminho
para a plena adesão a Cristo Salvador.
Animada já interiormente pelo espirito missionário,
a Igreja doméstica é chamada a ser um sinal luminoso
da presença de Cristo e do seu amor mesmo para os «afastados»,
para as familias que ainda não crêem e para aquelas
que já não vivem em coerência com a fé
recebida: é chamada «com o seu exemplo e com o seu
testemunho» a iluminar «aqueles que procuram a verdade».
Como já no início do cristianismo Áquila e
Priscila se apresentavam como casal missionário, assim hoje
a Igreja testemunha a sua incessante novidade e rejuvenescimento
com a presença de cônjuges e de famílias cristãs
que, ao menos durante um certo período de tempo, estão
nas terras de missão a anunciar o Evangelho, servindo o homem
com o amor de Jesus Cristo.
As famílias cristãs dão um contributo particular
à causa missionária da Igreja cultivando as vocações
missionárias nos seus filhos e filhas e, de uma forma mais
generalizada, com uma obra educativa que vai «dispondo os
filhos, desde a infancia para conhecerem o amor de Deus por todos
os homens».
2) A família cristã, comunidade em diálogo
com Deus
O santuário doméstico da Igreja
55.O anúncio do Evangelho e a sua aceitação
pela fé atingem a plenitude na celebração sacramental.
A Igreja, comunidade crente e evangelizadora, é também
povo sacerdotal, revestido de dignidade e participante do poder
de Cristo Sumo Sacerdote da Nova e Eterna Aliança.
A família cristã também está inserida
na Igreja, povo sacerdotal: mediante o sacramento do matrimónio,
no qual está radicada e do qual se alimenta, é continuamente
vivificada pelo Senhor Jesus, e por Ele chamada e empenhada no diálogo
com Deus mediante a vida sacramental, o oferecimento da própria
existência e a oração.
É este o múnus sacerdotal que a família cristã
pode e deve exercitar em comunhão íntima com toda
a Igreja, através das realidades quotidianas da vida conjugal
e familiar: em tal sentido a família cristã é
chamada a santificar-se e a santificar a comunidade cristã
e o mundo.
O matrimónio, sacramento de santificação
mútua e acto de culto
56. O sacramento do matrimónio, que retoma e especifica a
graça santificante do baptismo, é a fonte própria
e o meio original de sentificação para os cônjuges.
Em virtude do mistério da morte e ressurreição
de Cristo, dentro do qual se insere novamente o matrimónio
cristão, o amor conjugal é purificado e santificado:
«O Senhor dignou-se sanar, aperfeiçoar e elevar este
amor com um dom especial de graça e caridade»
O dom de Jesus Cristo não se esgota na celebração
do matrimónio, mas acompanha os cônjuges ao longo de
toda a existência. O Concílio Vaticano II recorda-o
explicitamente, quando diz que Jesus Cristo «permanece com
eles, para que, assim como Ele amou a Igreja e se entregou por ela,
de igual modo os cônjuges, dando-se um ao outro, se amem com
perpétua fidelidade... Por este motivo, os esposos cristãos
são fortalecidos e como que consagrados em ordem aos deveres
do seu estado por meio de um sacramento especial; cumprindo, graças
à energia deste, a própria missão conjugal
e familiar, penetrados do espírito de Cristo que impregna
toda a sua vida de fé, esperança e caridade, avançam
sempre mais na própria perfeição e mútua
santificação e cooperam assim juntos para a glória
de Deus».
A vocação universal à santidade é dirigida
também aos cónjuges e aos pais cristãos: é
especificada para eles pela celebracão do sacramento e traduzida
concretamente nas realidades próprias da existência
conjugal e familiar. Nascem daqui a graça e a exigência
de uma autêntica e profundo espiritualidade conjugal e familiar,
que se inspire nos motivos da criação, da aliança,
da cruz, da ressurreição e do sinal, sobre cujos temas
se deteve várias vezes o Sínodo.
O matrimónio cristão, como todos os sacramentos que
«estão ordenados à santificação
dos homens, à edificação do Corpo de Cristo,
e enfim, a prestar culto a Deus», é em si mesmo um
acto litúrgico de louvor a Deus em Jesus Cristo e na Igreja:
celebrando-o, os cônjuges cristãos professam a sua
gratidão a Deus pelo dom sublime que lhes foi dado de poder
reviver na sua existência conjugal e familiar o mesmo amor
de Deus pelos homens e de Cristo pela Igreja sua esposa.
E como do sacramento derivam para os cônjuges o dom e a obrigação
de viver no quotidiano a santificação recebida, assim
do mesmo sacramento dimanam a graça e o empenho moral de
transformar toda a sua vida num contínuo «sacrifício
espiritual». Ainda aos esposos e aos pais cristãos,
particularmente para aquelas realidades terrenas e temporais que
os caracterizam, se aplicam as palavras do Concílio: «E
deste modo, os leigos, agindo em toda a parte santamente, como adoradores,
consagram a Deus o próprio mundo».
Matrimónio e Eucaristia
57. O dever de santificação da família tem
a sua primeira raiz no baptismo e a sua expressão máxima
na Eucaristia, à qual está intimamente ligado o matrimónio
cristão. O Concílio Vaticano II quis chamar a atenção
para a relação especial que existe entre a Eucaristia
e o matrimónio pedindo que: «o matrimónio se
celebre usualmente dentro da Missa». Redescobrir e aprofundar
tal relação é absolutamente necessário,
se se quiser compreender e viver com uma maior intensidade as graças
e as responsabilidades do matrimónio e da família
cristã.
A Eucaristia é a fonte própria do matrimónio
cristão. O sacrifício eucarístico, de facto,
representa a aliança de amor de Cristo com a Igreja, enquanto
sigilada com o sangue da sua Cruz. Neste sacrifício da Nova
e Eterna Aliança é que os cônjuges cristãos
encontram a raiz da qual brota, é interiormente plasmada
e continuamente vivificada a sua aliança conjugal. Como representação
do sacrifício de amor de Cristo pela Igreja, a Eucaristia
é fonte de caridade. E no dom eucarístico da caridade
a família cristã encontra o fundamento e a alma da
sua «comunhão» e da sua «missão»:
o Pão eucarístico faz dos diversos membros da comunidade
familiar um único corpo, revelação e participação
na mais ampla unidade da Igreja; a participação pois
ao Corpo «dado» e ao Sangue «derramado»
de Cristo torna-se fonte inesgotável do dinamismo missionário
e apostólico da família cristã.
O sacramento da conversão e da reconciliação
58. Uma parte essencial e permanente do dever de santificação
da família cristã é o acolhimento do apelo
evangélico de conversão dirigido a todos os cristãos,
que nem sempre permanecem fiéis à «novidade»
daquele baptismo que os constituiu «santos». A família
cristã também nem sempre é coerente com a lei
da graça e da santidade baptismal, proclamada de novo pelo
sacramento do matrimónio.
O arrependimento e o mútuo perdão no seio da família
cristã, que se revestem de tanta importância na vida
quotidiana, encontram o seu momento sacramental específico
na Penitência cristã. Aos cônjuges escrevia assim
Paulo VI, na Encíclica Humanae Vitae: «Se o pecado
os atingir, não desanimem, mas recorram com humilde perseverança
à misericórdia de Deus, que com prodigalidade é
generosamente dada no sacramento da Penitência».
A celebração deste sacramento dá à vida
familiar um significado particular: ao descobrirem pela fé
como o pecado contradiz não só a aliança com
Deus, mas também a aliança dos cônjuges e a
comunhão da família, os esposos e todos os membros
da família são conduzidos ao encontro com Deus «rico
em misericórdia», o qual, alargando o seu amor que
é mais forte do que o pecado, reconstrói e aperfeiçoa
a aliança conjugal e a comunhão familiar.
A oração familiar
59. A Igreja reza pela família cristã e educa-a a
viver em generosa coerência com o dom e o dever sacerdotal,
recebido de Cristo Sumo Sacerdote. Na realidade, o sacerdócio
baptismal dos fiéis, vivido no matrimónio-sacramento,
constitui para os cônjuges e para a família o fundamento
de uma vocação e de uma missão sacerdotal,
pela qual a própria existência quotidiana se transforma
num «sacrifício espiritual agradável a Deus
por meio de Jesus Cristo»: é o que acontece, não
só com a celebração da Eucaristia e dos outros
sacramentos e com a oferenda de si mesmos à glória
de Deus, mas também com a vida de oração, com
o diálogo orante com o Pai por Jesus Cristo no Espírito
Santo.
A oração familiar tem as suas características.
É uma oração feita em comum, marido e mulher
juntos, pais e filhos juntos. A comunhão na oração
é, ao mesmo tempo, fruto e exigência daquela comunhão
que é dada pelos sacramentos do baptismo e do matrimónio.
Aos membros da família cristã podem aplicar-se de
modo particular as palavras com que Cristo promete a sua presenca:
«Digo-vos ainda: se dois de vós se unirem, na terra,
para pedirem qualquer coisa, obtê-la-ão de Meu Pai
que está nos Céus. Pois onde estiverem reunidos, em
Meu nome, dois ou três, Eu estou no meio deles».
A oração familiar tem como conteúdo original
a própria vida de família, que em todas as suas diversas
fases é interpretada como vocação de Deus e
actuada como resposta filial ao Seu apelo: alegrias e dores, esperanças
e tristezas, nascimento e festas de anos, aniversários de
núpcias dos pais, partidas, ausências e regressos,
escolhas importantes e decisivas, a morte de pessoas queridas, etc.,
assinalam a intervenção do amor de Deus, na história
da família, assim como devem marcar o momento favorável
para a acção de graças, para a impetração,
para o abandono confiante da família ao Pai comum que está
nos céus. A dignidade e a responsabilidade da família
cristã como Igreja doméstica só podem pois
ser vividas com a ajuda incessante de Deus, que não faltará,
se implorada com humildade e confiança na oração.
Educadores de oração
60. Em virtude da sua dignidade e missão, os pais cristãos
têm o dever específico de educar os filhos para a oração,
de os introduzir na descoberta progressiva do mistério de
Deus e no colóquio pessoal com Ele: «É sobretudo
na família cristã, ornada da graça e do dever
do sacramento do matrimónio, que devem ser ensinados os filhos
desde os primeiros anos, segundo a fé recebida no Baptismo,
a conhecer e a adorar Deus e amar o próximo».
Elemento fundamental e insubstituível da educação
para a oração é o exemplo concreto, o testemunho
vivo dos pais: só rezando em conjunto com os filhos, o pai
e a mãe, enquanto cumprem o próprio sacerdócio
real, entram na profundidade do coração dos filhos,
deixando marcas que os acontecimentos futuros da vida não
conseguirão fazer desaparecer. Tornemos a escutar o apelo
que o Papa Paulo VI dirigiu aos pais: «Mães, ensinais
aos vossos filhos as orações do cristão? Em
consonancia com os Sacerdotes, preparais os vossos filhos para os
sacramentos da primeira idade: confissão, comunhão,
crisma? Habituai-los, quando enfermos, a pensar em Cristo que sofre?
a invocar o auxílio de Nossa Senhora e dos Santos? Rezais
o terço em família? E vós, Pais, sabeis rezar
com os vossos filhos, com toda a comunidàde doméstica,
pelo menos algumas vezes? O vosso exemplo, na rectidão do
pensamento e da acção, sufragada com alguma oração
comum, tem o valor de uma lição de vida, tem o valor
de um acto de culto de mérito particular; levais assim a
paz às paredes domésticas: "Pax huic domui!".
Recordai: deste modo construís a Igreja!».
Oração litúrgica e privada
61. Entre a oração da Igreja e a de cada um dos fiéis
há uma profunda e vital relação, como reafirmou
claramente o Concílio Vaticano II.
Ora uma finalidade importante da oração da Igreja
doméstica é a de constituir, para os filhos, a introdução
natural à oração litúrgica própria
da Igreja inteira, no sentido quer de uma preparação
para ela, quer de a alargar ao âmbito da vida pessoal, familiar
e social. Daqui a necessidade de uma participação
progressiva de todos os membros da família cristã
na Eucaristia, sobretudo na dominical e festiva, e nos outros sacramentos,
em particular nos da iniciação cristã dos filhos.
As directivas conciliares abriram uma nova possibilidade à
família cristã, que foi incluída entre os grupos
aos quais se recomenda a celebração comunitária
do Ofício divino. Assim também está ao cuidado
da família cristã celebrar, mesmo em casa e de forma
adaptada aos seus membros, os tempos e as festividades do ano litúrgico.
Para preparar e prolongar em casa o culto celebrado na Igreja, a
família cristã recorre à oração
privada, que se apresenta sob uma grande variedade de formas: esta
variedade, enquanto testemunho da riqueza extraordinária
com a qual o Espírito anima a oração cristã,
responde às diversas exigências e situações
da vida de quem se volta para o Senhor. Além das orações
da manhã e da tarde são de aconselhar expressamente
- seguindo também indicações dos Padres Sinodais
- a leitura e a meditação da Palavra de Deus, a preparação
para a recepção dos sacramentos, a de voção
e consagração ao Coração de Jesus, as
várias formas de culto à Santíssima Virgem,
a bênsão da mesa, as práticas de piedade popular.
No respeito pela liberdade dos filhos de Deus, a Igreja propôs
e continua a sugerir aos fiéis algumas práticas de
piedade com solicitude e insistência particulares. Entre estas
é de lembrar a recitação do Rosário:
«Queremos agora, em continuidade de pensamento com os nossos
Predecessores, recomendar vivamente a recitação do
Santo Rosário em família... Não há dúvida
de que o Rosário da bem-aventurada Virgem Maria deve ser
considerado uma das mais excelentes e eficazes orações
em comum, que a família cristã é convidada
a recitar Dá-nos gosto pensar e desejamos vivamente que,
quando o encontro familiar se transforma em tempo de oração,
seja o Rosário a sua expressão frequente e preferida»,
Desta maneira a autêntica devoção mariana, que
se exprime no vínculo sincero e na generosa série
das posições espirituais da Virgem Santíssima,
constitui um instrumento privilegiado para alimentar a comunhão
de amor da família e para desenvolver a espiritualidade conjugal
e familiar. Ela, a Mãe de Cristo e da Igreja, é também,
de facto, de forma especial, a Mãe das famílias cristãs,
das Igrejas domésticas.
Oração e vida
62. Nunca se deverá esquecer que a oração é
parte constitutiva essencial da vida cristã, tomada na sua
integralidade e centralidade; mais ainda, pertenece à nossa
mesma «humanidade»: é «a primeira expressão
da vida interior do homem, a primeira condição da
autêntica liberdade do espírito».
Por isso, a oração não representa de modo algum
uma evasão que desvia do empenho quotidiano, mas constitui
o impulso mais forte para que a família cristã assuma
e cumpra em plenitude todas as suas responsabilidades de célula
primeira e fundamental da sociedade humana. Em tal sentido, a efectiva
participação na vida e na missão da Igreja
no mundo é proporcional à fidelidade e à intensidade
da oração com que a família cristã se
une à Videira fecunda, Cristo Senhor.
Da união vital com Cristo, alimentada pela Liturgia, pelo
oferecimento de si e da oração, deriva também
a fecundidade da família cristã no seu serviço
específico de promoção humana, que de per si
não pode não levar à transformação
do mundo.
3) A família cristã,
comunidade ao serviço do homem
O
mandamento novo do amor
63. A Igreja, povo profético, sacerdotal e real, tem a missão
de levar todos os homens a acolher na fé a Palavra de Deus,
a celebrá-la e a professá-la nos sacramentos e na
oração, e, por fim, a manifestá-la na vida
concreta segundo o dom e o mandamento novo do amor.
A vida cristã encontra a sua lei não num código
escrito, mas na acção pessoal do Espírito Santo
que anima e guia o cristão, isto é, na «lei
do Espírito que dá vida em Cristo Jesus»: «o
amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo
Espírito Santo, que nos foi concedido».
Isto vale também para o casal e para a família cristã:
seu guia e norma é o Espírito de Jesus, difundido
nos corações com a celebração do sacramento
do matrimónio. Em continuidade com o baptismo na água
e no Espírito, o matrimónio propõe outra vez
a lei evangélica do amor, e, com o dom do Espírito,
grava-a mais profundamente no coração dos conjuges
cristãos: o seu amor, purificado e salvo, é fruto
do Espírito, que age no coração dos crentes
e se põe, ao mesmo tempo, como mandamento fundamental da
vida moral pedida à liberdade responsável deles.
A família cristã é deste modo animada e guiada
pela nova lei do Espírito e em íntima comunhão
com a Igreja, povo real, chamada a viver o seu «serviço»
de amor a Deus e aos irmãos. Como Cristo exerce o seu poder
real pondo-se ao serviço dos homens, assim o cristão
encontra o sentido autêntico da sua participação
na realeza do seu Senhor ao condividir com Ele o espírito
e a atitude de serviço no que diz respeito ao homem: «Comunicou
(Cristo) este poder aos discípulos, para que também
eles sejam constituídos em régia liberdade e, com
a abnegação de si mesmos e a santidade da vida, vençam
em si próprios o reino do pecado (cfr. Rom. 6, 12); mais
ainda, para que, servindo a Cristo também nos outros, conduzam
os seus irmãos, com humildade e paciência, àquele
Pai, a quem servir é reinar. Pois o Senhor deseja dilatar
também por meio dos leigos o Seu reino, reino de verdade
e de vida, reino de santidade e de graça, reino de justiça,
de amor e de paz, no qual a própria criação
será liberta da servidão da corrupção
alcançando a liberdade da glória dos filhos de Deus
(cfr. Rom. 8, 21)».
Descobrir em cada irmão a imagem de Deus
64. Animada e sustentada pelo mandamento novo do amor, a família
cristã vive a acolhida, o respeito, o serviço para
com a homem, considerado sempre na sua dignidade de pessoa e de
filho de Deus.
Isto deve acontecer, antes de tudo, no e para o casal e para a família,
mediante o empenho quotidiano de promover uma autêntica comunidade
de pessoas, fundada e alimentada por uma íntima comunhão
de amor. Deve além disso ampliar-se para o círculo
mais universal da comunidade eclesial, dentro da qual a família
cristã está inserida: graças à caridade
da família, a Igreja pode e deve assumir uma dimensão
mais doméstica, isto é, mais familiar, adoptando um
estilo de relações mais humano e fraterno.
A caridade ultrapassa os próprios irmãos na fé,
porque «todo o homem é meu irmão»; em
cáda um, sobretudo se pobre, fraco, sofredor e injustamente
tratado, a caridade sabe descobrir o rosto de Cristo e um irmão
a amar e a servir.
Para que o serviço ao homem seja vivido pela família
segundo o estilo evangélico será necessário
pôr em prática com urgência o que escreve o Concílio
Vaticano II: «Para que este exercício da caridade seja
e apareça acima de toda a suspeita, considere-se no próximo
a imagem de Deus, para o qual foi criado, veja-se nele Cristo, a
quem realmente se oferece tudo o que ao indigente se dá»
A famílía cristã, enquanto edifica a Igreja
pela caridade, põe-se ao serviço do homem e do mundo,
actuando verdadeiramente a «promoção humana»,
cujo conteúdo se encontra sintetizado na Mensagem do Sínodo
à família: «É vossa tarefa formar os
homens para o amor e educá-los a agir com amor em todas as
relações humanas, de modo que o amor fique aberto
à comunidade inteira, permeado do sentido de justiça
e de respeito para com os demais, cônscio da própria
responsabilidade para com a mesma sociedade».
QUARTA
PARTE
A PASTORAL FAMILIAR: ETAPAS, ESTRUTURAS, RESPONSÁVEIS E SITUAÇÕES
I - AS ETAPAS DA PASTORAL FAMILIAR
A Igreja acompanha a família cristã no seu caminho
65. Como toda a realidade vivente, também a família
é chamada a desenvolver-se e a crescer. Depois da preparação
do noivado e da celebração sacramental do matrimónio,
o casal inicia o caminho quotidiano para a progressiva actuação
dos valores e dos deveres do próprio matrimónio.
À luz da fé e em virtude da esperança, também
a família cristã participa, em comunhão com
a Igreja, na experiência de peregrinação na
terra para a plena revelação e realização
do Reino de Deus.
Sublinha-se, portanto, uma vez mais a urgência da intervenção
pastoral da Igreja em prol da família. É preciso empregar
todas as forças para que a pastoral da família se
afirme e desenvolva, dedicando-se a um sector verdadeiramente prioritário,
com a certeza de que a evangelização, no futuro, depende
em grande parte da Igreja doméstica.
A solicitude pastoral da Igreja não se limitará somente
às famílias cristãs mais próximas, mas,
alargando os próprios horizontes à medida do coração
de Cristo, mostrar-se-á ainda mais viva para o conjunto das
famílias em geral e para aquelas, em particular, que se encontram
em situações difíceis ou irregulares. Para
todas a Igreja terá uma palavra de verdade, de bondade, de
compreensão, de esperança, de participacão
viva nas suas dificudades por vezes dramáticas; a todas oferecerá
ajuda desinteressada a fim de que possam aproximar-se do modelo
de família, que o Criador quis desde o «princípio»
e que Cristo renovou com a graça redentora.
A acção pastoral da Igreja deve ser progressiva, também
no sentido de que deve seguir a família, acompanhando-a passo
a passo nas diversas etapas da sua formação e desenvolvimento.
A preparação
66. A preparação dos jovens para o matrimónio
e para a vida familiar é necessária hoje mais do que
nunca. Em alguns países são ainda as mesmas famílias
que, segundo costumes antigos, se reservam transmitir aos jovens
os valores que dizem respeito à vida matrimonial e familiar,
mediante uma obra progressiva de educação ou iniciação.
Mas as mudanças verificadas no seio de quase todas as sociedades
modernas exigem que não só a família, mas também
a sociedade e a Igreja se empenhem no esforço de preparar
adequadamente os jovens para as responsabilidades do seu futuro.
Muitos fenómenos negativos que hoje se lamentam na vida familiar
derivam do facto que, nas situações novas, os jovens
não só perdem de vista a justa hierarquia dos valores,
mas, não possuindo critérios seguros de comportamento,
não sabem como enfrentar e resolver as novas dificuldades.
Contudo a experiência ensina que os jovens bem preparados
para vida familiar, em geral, têm mais êxito do que
os outros.
Isto vale mais ainda para o matrimónio cristão, cuja
influência repercute na santidade de tantos homens e mulheres.
Por isso a Igreja deve promover melhores e mais intensos programas
de preparação para o matrimónio, a fim de eliminar,
o mais possível, as dificuldades com que se debatem tantos
casais, e sobretudo para favorecer positivamente o aparecimento
e o amadurecimento de matrimónios com êxito.
A preparação para o matrimónio deve ver-se
e actuar-se como um processo gradual e contínuo. Compreende,
de facto, três momentos principais: uma preparação
remota, outra próxima e uma outra imediata.
A preparação remota tem início desde a infancia,
naquela sábia pedagogia familiar, orientada a conduzir as
crianças a descobrirem-se a si mesmas como seres dotados
de uma rica e complexa psicologia e de uma personalidade particular
com as forças e fragilidades próprias. É o
período em que é infundida a estima por todo o valor
humano autêntico, quer nas relações interpessoais,
quer nas sociais, com tudo o que significa para a formação
do carácter, para o domínio e recto uso das inclinações
próprias, para o modo de considerar e encontrar as pessoas
do outro sexo, etc. É pedida, além disso, especialmente
aos cristãos, uma sólida formação espiritual
e catequética, que saiba mostrar o matrimónio como
verdadeira vocação e missão sem excluir a possibilidade
do dom total de si a Deus nà vocação à
vida sacerdotal ou religiosa.
É nesta base que, em seguida e mais amplamente, se porá
o problema da preparação próxima, que - desde
a idade oportuna e com adequada catequese, como em forma de caminho
catecumenal - compreende uma preparação mais específica,
quase uma nova descoberta dos sacramentos. Esta catequese renovada
de todos os que se preparam para o matrimónio cristão
é absolutamente necessária, para que o sacramento
seja celebrado e vivido com rectas disposições morais
e espirituais. A formação religiosa dos jovens deverá
ser integrada, no momento conveniente e segundo as várias
exigências concretas, numa preparação para a
vida a dois que, apresentando o matrimónio como uma relação
interpessoal do homem e da mulher em contínuo desenvolvimento,
estimule a aprofundar os problemas da sexualidade conjugal e da
paternidade responsável, com os conhecimentos médico-biológicos
essenciais que lhe estão anexos, e os leve à familiaridade
com métodos adequados de educação dos filhos,
favorecendo a aquisição dos elementos de base para
uma condução ordenada da família (por exemplo,
trabalho estável, disponibilidade financeira suficiente,
administração sábia, noções de
economia doméstica).
Por fim não se deverá omitir a preparação
para o apostolado familiar, para a fraternidade e colaboração
com as outras famílias, para a inserção activa
nos grupos, associações, movimentos e iniciativas
que têm por finalidade o bem humano e cristão da família.
A preparação imediata para a celebração
do sacramento do matrimónio deve ter lugar nos últimos
meses e semanas que precedem as núpcias quase a dar um novo
significado, um novo conteúdo e forma nova ao chamado exame
pré matrimonial exigido pelo direito canónico. Sempre
necessária em todos os casos, tal preparação
impõe-se com maior urgência para aqueles noivos que
apresentam carências e dificuldades na doutrina e na prática
cristã.
Entre os elementos a comunicar neste caminho de fé, análogo
ao do catecumenato, deve incluir-se uma profunda consciência
do mistério de Cristo e da Igreja, dos significados de graça
e de responsabilidade do matrimónio cristão, assim
como a preparação para tomar parte activa e consciente
nos ritos da liturgia nupcial.
Nas diversas fases de preparação para o matrimónio
- que delineámos somente em grandes traços indicativos
- devem sentir-se empenhadas a família cristã e toda
a comunidade eclesial. É desejável que as Conferências
episcopais, interessadas em iniciativas oportunas para ajudar os
futuros esposos a serem mais conscientes da seriedade da sua escolha
e os pastores a certificarem-se das suas convenientes disposições,
publiquem um Directório para a pastoral da família.
Nele deverão estabelecer, antes de tudo, os elementos mínimos
de conteúdo, de duração e de métodos
dos «Cursos de preparação», equilibrando
os diversos aspectos - doutrinais, pedagógicos, legais e
médicos - e estudando-os de modo que quantos se preparam
para o matrimónio, para além de um aprofundamento
intelectual, se sintam estimulados a inserirem-se vitalmente na
comunidade eclesial.
Muito embora o carácter de necessidade e de obrigatoriedade
da preparação imediata não seja de menosprezar
- o que aconteceria se se concedesse facilmente a dispensa - todavia,
tal preparação deve ser sempre proposta e actuada
de modo que a sua eventual omissão não seja impedimento
à celebração do matrimónio.
A celebração
67. O matrimónio cristão exige, por norma, uma celebração
litúrgica que exprima de forma social e comunitária
a natureza essencialmente eclesial sacramental do pacto conjugal
entre os baptizados.
Enquanto gesto sacramental de santificação, a cèlebração
do matrimónio - inserida na liturgia, cume de toda a acção
da Igreja e fonte da sua força santificadora deve ser por
si válida, digna e frutuosa. Abre-se aqui um campo vasto
à solicitude pastoral a fim de que sejam plenamente cumpridas
as exigências derivantes da natureza do pacto conjugal elevado
a sacramento, e seja de igual modo fielmente observada a disciplina
da Igreja sobre a liberdade do consentimento, os impedimentos, a
forma canónica e o próprio rito da celebração.
Este último deve ser simples e digno, de acordo com os princípios
das competentes autoridades da Igreja, às quais também
incumbe - segundo as circumstancias concretas de tempo e de lugar
e em conformidade com as normas emanadas da Sé Apostólica
- assumir eventualmente na celebração litúrgica
elementos próprios de uma determinada cultura, que exprimam
de forma mais adequada o profundo significado humano e religioso
do pacto conjugal, desde que nada contenham de menos condizente
com a fé e a moral cristãs.
Enquanto sinal, a celebração litúrgica deve
desenvolver-se de maneira a constituir, mesmo no seu aspecto exterior,
uma proclamação da Palavra de Deus e uma profissão
de fé da comunidade dos crentes. O empenhamento pastoral
terá aqui a sua expressão no diligente cuidado da
preparação da «Liturgia da Palavra» e
na educação para a fé dos que assistem à
celebração e, em primeiro lugar, dos nubentes.
Enquanto gesto sacramental da Igreja, a celebração
litúrgica do matrimónio deve envolver a comunidade
cristã, com uma participação plena, activa
e responsável de todos os presentes, de acordo com a posição
e a função de cada um: os esposos, o sacerdote, as
testemunhas, os parentes, os amigos, os demais fiéis: todos
os membros de uma assembleia que manifesta e vive o mistério
de Cristo e da sua Igreja.
Para a celebração do matrimónio cristão
no âmbito de culturas ou tradições ancestrais,
sigam-se os princípios já acima enunciados.
Celebração do matrimónio e evangelização
dos baptizados não crentes
68. Exactamente porque na celebração do sacramento
se presta uma atenção muito especial às disposições
morais e espirituais dos nubentes, em particular à sua fé,
enfrentamos aqui uma dificuldade não rara, que podem encontrar
os pastores da Igreja no contexto da nossa sociedade secularizada.
Com efeito, a fé de quem pede casar-se pela Igreja pode existir
em graus diversos e é dever primário dos pastores
fazê-la descobrir de novo, nutri-la e torná-la madura.
Devem, além disso, compreender as razões que levam
a Igreja a admitir à celebração do matrimónio
mesmo aqueles que estão imperfeitamente dispostos.
O matrimónio tem de específico o ser sacramento de
uma realidade que já existe na economia da criação:
o mesmo pacto conjugal instituído pelo Criador «desde
o princípio». A decisão do homem e da mulher
de se casarem segundo este projecto divino, a decisão de
empenharem no seu irrevogável consenso conjugal toda a vida
num amor indissolúvel e numa fidelidade incondicional, implica
realmente, mesmo se não em modo plenamente consciente, uma
disposição de profunda obediência à vontade
de Deus, que não pode acontecer sem a graça. Portanto
inserem-se já num verdadeiro e próprio caminho de
salvação, que a celebração do sacramento
e a sua imediata preparação podem completar e levar
a termo, dada a rectidão da intenção deles.
É verdade, contudo, que, em alguns territórios, motivos
de carácter mais social que autenticamente religioso, induzem
os noivos a casarem-se na igreja. Não admira. O matrimónio,
na verdade, não é um acontecimento que diz respeito
só a quem se casa. Por sua própria natureza é
também um facto social, que compromete os esposos ante a
sociedade. Desde sempre a sua celebração se faz com
festa, que une as famílias e os amigos. É normal,
portanto, que entrem motivos sociais, juntamente com os pessoais,
na petição do casamento na igreja.
Todavia, não se deve esquecer que estes noivos, pela força
do seu baptismo, estão já realmente inseridos na Aliança
nupcial de Cristo com a Igreja e que, pela sua recta intenção,
acolheram o projecto de Deus sobre o matrimónio, e, portanto,
ao menos implicitamente, querem aquilo que a Igreja faz quando celebra
o matrimónio. Portanto, o mero facto de neste pedido entrarem
motivos de carácter social, não justifica uma eventual
recusa da celebração do matrimónio pelos pastores.
De resto, como ensinou o Concílio Vaticano II, os sacramentos
com as palavras e os elementos rituais nutrem e robustecem a fé:168
aquela fé para a qual os noivos já estão encaminhados
pela força da rectidão da sua intenção,
que a graça de Cristo não deixa certamente de favorecer
e de sustentar.
Querer estabelecer critérios ulteriores de admissão
à celebração eclesial do matrimónio,
que deveriam considerar o grau de fé dos nubentes, compreende,
além do mais, riscos graves. Antes de tudo, o de pronunciar
juízos infundados e discriminatórios; depois, o risco
de levantar dúvidas sobre a validade de matrimónios
já celebrados, com dano grave para as comunidades cristãs,
e de novas inquietações injustificadas para a consciência
dos esposos; cair-se-ia no perigo de contestar ou de pôr em
dúvida a sacramentalidade de muitos matrimónios de
irmãos separados da comunhão plena com a Igreja Católica,
contradizendo assim a tradição eclesial.
Quando, pelo contrário, não obstante todas as tentativas
feitas, os nubentes mostram recusar de modo explícito e formal
o que a Igreja quer fazer ao celebrar o matrimónio dos baptizados,
o pastor não os pode admitir à celebração.
Mesmo se constrangido, ele tem o dever de avaliar a situação
e fazer compreender aos interessados que, estando assim as coisas,
não é a Igreja, mas eles mesmos a impedirem a celebração
que não obstante pedem.
Mais urna vez se manifesta com toda a urgência a necessidade
de uma evangelização e cataquese pré e pós
matrimoniais, feitas por toda a comunidade cristã, para que
cada homem e cada mulher que se casam, o possam fazer de modo a
celebrarem o sacramento do matrimónio não só
válida mas também frutuosamente.
Pastoral pós-matrimonial
69. O cuidado pastoral da família regularmente constituída
significa, em concreto, o empenho de todos os membros da comunidade
eclesial local em ajudar a casal a descobrir e a viver a sua nova
vocação e missão. Para que a família
se transforme mais numa verdadeira comunidade de amor, é
necessário que todos os membros sejam ajudados e formados
para as responsabilidades próprias diante dos novos problemas
que se apresentam, para o serviço reciproco, para a comparticipação
activa na vida da famíia.
Isto vale sobretudo para as famílias jovens, as quais, encontrando-se
num contexto de novos valores e de novas responsabilidades, estão
mais expostas, especialmente nos primeiros anos de matrimónio,
a eventuais dificuldades, como as criadas pela adaptação
à vida em comum ou pelo nascimento dos filhos. Os jovens
cônjuges saibam acolher cordialmente e inteligentemente valorizar
a ajuda discreta, delicada e generosa de outros casais, que já
de há tempo fazem a mesma experiência do matrimónio
e da família. Assim, no seio da comunidade eclesial - grande
família formada pelas famílias cristãs - realizar-se-á
um intercambio mútuo de presença e ajuda entre todas
as famílias, cada uma pondo ao serviço das outras
a própria experiência humana, como também os
dons da fé e da graça. Animada de verdadeiro espirito
apostólico, esta ajuda de família a família
constituirá um dos modos mais simples, mais eficazes e ao
alcance de todos para transfundir capilarmente os valores cristãos,
que são o ponto de partida e de chegada do trabalho pastoral.
Deste modo as famílias jovens não se limitarão
só a receber, mas por sua vez, assim ajudadas, tornar-se-ão
fonte de enriquecimento para outras familias, há tempo constituídas,
com o seu testemunho de vida e o seu contributo de facto.
Na acção pastoral para com as famílias jovens,
a Igreja deverá prestar uma atenção específica
para as educar a viver responsavelmente o amor conjugal em relação
com as exigências de comunhão e de serviço à
vida, como também a conciliar a intimidade da vida de casa
com a obra comum e generosa de edificar a Igreja e a sociedade humana.
Quando, com a vinda dos filhos, o casal se torna em sentido pleno
e específico uma família, a Igreja estará ainda
próxima dos pais para que os acolham e os amem à luz
do dom recebido do Senhor da vida, assumindo com alegria a fadiga
de os servir no seu crescimento humano e cristão.
II - ESTRUTURAS DA PASTORAL FAMILIAR
A acção pastoral é sempre expressão
dinamica da realidade da Igreja, empenhada na missão de salvação.
Também a pastoral familiar - forma particular e específica
da pastoral - tem como seu principio operativo e como protagonista
responsável a mesma Igreja, através das suas estruturas
e dos seus responsáveis.
A comunidade eclesial e a paróquia em particular
70. Sendo ao mesmo tempo comunidade salva e salvadora, a Igreja
deve considerar-se aqui na sua dupla dimensão universal e
particular: esta exprime-se e actua-se na comunidade diocesana,
pastoralmente dividida em comunidades menores entre as quais se
distingue, pela sua importância peculiar, a paróquia.
A comunhão com a Igreja universal não mortifica, mas
garante e promove a consistência e originalidade das diversas
Igrejas particulares; estas últimas são o sujeito
operativo mais imediato e mais eficaz para a actuação
da pastoral familiar. Em tal sentido cada Igreja local e, em termos
mais particularizados, cada comunidade paroquial, deve ter consciência
mais viva da graça e da responsabilidade que recebe do Senhor
em ordem a promover a pastoral da família. Nenhum plano de
pastoral organica, a qualquer nível que seja, pode prescindir
da pastoral da família.
À luz de tal responsabilidade deve compreender-se também
a importância de uma adequada preparação da
parte de quantos estarão mais especificamente empenhados
neste género de apostolado. Os sacerdotes, os religiosos
e as religiosas, desde o tempo de formação, sejam
orientados e formados de maneira progressiva e adequada para os
respectivos deveres. Entre outras iniciativas alegro-me de poder
sublinhar a recente criação em Roma, na Pontifícia
Universidade Lateranense, de um Instituto Superior consagrado ao
estudo dos problemas da família. Já em algumas dioceses
foram fundados Institutos deste género: Os bispos empenhem-se
para que o maior número possivel de sacerdotes, antes de
assumirem responsabilidades paroquiais, frequente cursos especializados.
Noutras partes realizam-se periodicamente cursos de formação
em Institutos Superiores de estudos Teológicos e Pastorais.
Tais iniciativas são de encorajar, sustentar, multiplicar
e abrir obviamente também aos leigos que desempenharão
o seu trabalho profissional (médico, legal, psicológico,
social e educativo) de ajuda à família.
A família
71. Mas deve sobretudo reconhecer-se o lugar especial que, neste
campo, compete à missão dos cônjuges e das famílias
cristãs, em virtude da graça recebida no sacramento.
Tal missão deve ser posta ao serviço da edificação
da Igreja, da construção do Reino de Deus na história.
Isto é pedido como acto de obediência dócil
a Cristo Senhor Com efeito, Ele, pela força do matrimónio
dos baptizados elevado a sacramento, confere aos esposos cristãos
uma missão peculiar de apóstolos, enviando-os como
operários para a sua vinha, e, de forma muito particular,
para este campo da família.
Na sua actividade eles agem em comunhão e colaboração
com os outros membros da Igreja, que também trabalham para
a família, pondo a render os seus dons e ministérios.
Tal apostolado de senvolver-se-á antes de tudo no seio da
própria família, com o testemunho da vida vivida em
conformidade com a lei divina em todos os aspectos, com a formação
cristã dos filhos, com a ajuda dada ao seu amadurecimento
na fé, com a educação à castidade, com
a preparação para a vida, com a vigilancia para os
preservar dos perigos ideológicos e morais de que são
muitas vezes ameaçados, com a sua gradual e responsável
inserção na comunidade eclesial e na civil, com a
assistência e o conselho na escolha da vocação,
com a mútua ajuda entre os membros da família para
um comum crescimento humano e cristão, e assim por diante.
O apostolado da família irradiar-se-á com obras de
caridade espiritual e material para com as outras famílias,
especialmente aquelas mais necessitadas de ajuda e de amparo, para
com os pobres, os doentes, os mais velhos, os deficientes, os órfãos,
as viúvas, os cônjuges abandonados, as mães
solteiras e aquelas que em situações difíceis
são tentadas a desfazerem-se do fruto do seu seio, etc.
As associações de famílias ao serviço
das famílias
72. Sempre no âmbito da Igreja, responsável pela pastoral
familiar, são para lembrar as diversas associações
de fiéis, nas quais se manifesta e se vive de algum modo
o mistério da Igreja de Cristo. Devem, portanto reconhecer-se
e valorizar-se - cada uma em relação às características,
finalidades, influxo e métodos próprios - as diversas
comunidades eclesiais, os vários grupos, e os numerosos movimentos
empenhados de modo vário, a diversos títulos e a diversos
níveis, na pastoral familiar.
Por este motivo o Sínodo reconheceu expressamente a utilidade
de tais associações de espiritualidade, de formação
e de apostolado. Será seu dever suscitar nos fiéis
um vivo sentido de solidariedade, favorecer uma conduta de vida
inspirada no Evangelho e na fé da Igreja, formar as conciências
segundo os valores cristãos e não de acordo com os
parametros da opinião pública, estimular para as obras
de caridade mútua e para com os outros com um espírito
de abertura, que faça das famílias cristãs
uma verdadeira fonte de luz e um fermento sadio para as demais.
Igualmente é desejável que, com um sentido vivo do
bem comum, as famílias cristãs se empenhem activamente
a todos os níveis, mesmo com outras associações
não eclesiais. Algumas destas associações visam
a preservação, transmissão e tutela dos sãos
valores éticos e culturais de cada povo, o desenvolvimento
da pessoa humana, a protecção médica, jurídica
e social da maternidade e da infancia, a justa promoção
da mulher e a luta contra o que calca a sua dignidade, o incremento
da solidariedade mútua, o conhecimento dos problemas conexos
com a regulação responsável da fecundidade
segundo os métodos naturais conformes à dignidade
humana e à doutrina da Igreja. Outras têm em vista
a construção de um mundo mais justo e mais humano,
a promoção de leis justas que favoreçam a recta
ordem social no respeito pleno da dignidade e da legítima
liberdade do indivíduo e da família, a nível
nacional ou internacional, a colaboração com a escola
e com as outras instituições que completam a educação
dos filhos, e assim sucessivamente.
III - OS RESPONSÁVEIS DA PASTORAL
FAMILIAR
Para além da família - objecto, mas sobretudo ela
mesma sujeito da pastoral familiar - devem recordar-se também,
os outros principais responsáveis neste sector particular.
Bispos e presbíteros
73. O primeiro responsável da pastoral familiar na diocese
é o bispo. Como Pai e Pastor, ele deve estar atento de um
modo particular a este sector da pastoral, sem dúvida prioritário.
Deve consagrar-lhe uma grande dedicação, solicitude,
tempo, pessoal, recursos; sobretudo, porém, apoio pessoal
às famílias e a quantos, nas diversas estruturas diocesanas,
o ajudam na pastoral da família. Empenhar-se-á particularmente
no propósito de fazer com que a sua diocese se torne sempre
mais uma verdadeira «família diocesana» modelo
e fonte de esperança para tantas famílias que a integram.
A criação do Conselho Pontifício para a Família
está neste contexto: sinal da importância que atribuo
à pastoral da família no mundo, e ao mesmo tempo in
strumento eficaz de aj uda à su a promoção
em todos os níveis.
Os bispos são auxiliados de modo particular pelos presbíteros,
cuja missão - como expressamente sublinhou o Sínodo
- integra essencialmente o ministério da Igreja para com
o matrimónio e a família. O mesmo se diga dos diáconos,
aos quais eventualmente venha a ser confiado este sector da pastoral.
A sua responsabilidade estende-se não só aos problemas
morais e litúrgicos, mas também aos pessoais e sociais.
Devem sustentar a família nas suas dificuldades e sofrimentos,
pondo-se ao lado dos seus membros, ajudando-os a ver a vida à
luz do Evangelho. Não é supérfluo notar que,
se tal missão for exercida com o devido discernimento e com
um verdadeiro espírito apostólico, o ministro da Igreja
recebe novos estímulos e energias espirituais mesmo para
a própria vocação e para o exercício
do seu ministério.
Oportuna e seriamente preparados para tal apostolado, o sacerdote
ou o diácono devem portar-se constantemente, em relação
às famílias, como pai, irmão, pastor e mestre,
ajudando-as com os dons da graça e iluminando-as com a luz
da verdade. O seu ensinamento e os seus conselhos, portanto, deverão
estar sempre em plena consonancia com o Magistério autêntico
da Igreja, de modo a ajudar o Povo de Deus a formar-se um recto
sentido da fé a aplicar à vida concreta. Tal fidelidade
ao Magistério permitirá também aos sacerdotes
procurar empenhadamente a unidade nos seus juízos, para evitarem
ansiedades na consciência dos fiéis.
Pastores e leigos participam, na Igreja, da missão profética
de Cristo: os leigos, testemunhando a fé com palavras e com
a vida cristã; os pastores, discernindo em tal testemunho
o que é expressão da fé genuína e o
que não corresponde originalmente à luz da mesma fé;
a família, enquanto comunidade cristã, com a sua participação
peculiar e testemunho de fé. Pode estabelecer-se assim um
diálogo entre os pastores e as famílias. Os teólogos
e os peritos em problemas familiares podem ajudar muito a tal diálogo,
explicando com exactidão o conteúdo do Magistério
da Igreja e o da experiência da vida em família. Desta
maneira a ensinamento do Magistério será melhor compreendido
e será aplanada a estrada para o seu progressivo desenvolvimento.
Convém contudo recordar que a norma próxima e obrigatória
na doutrina da fé - mesmo sobre os problemas da família
- compete ao Magistério hierárquico. A clareza de
relações entre teólogos, peritos de problemas
familiares e o Magistério ajudam muito a uma recta inteligência
da fé e à promoção - dentro dos seus
próprios limites - do legítimo pluralismo.
Religiosos e religiosas
74. O contributo que os religiosos e as re]igiosas, e as almas consagradas
em geral, podem dar ao apostolado da família encontra a primeira,
fundamental e original expressão exactamente na consagraçao
a Deus que os torna «diante de todos os fiéis... chamada
daquele admirável conúbio realizado por Deus e que
se manifestará plenamente no século futuro, pelo que
a Igreja tem Cristo como único esposo», e testemunhas
daquela caridade universal que por meio da castidade abraçada
pelo Reino dos céus, os torna sempre mais disponíveis
para se dedicarem generosamente ao serviço divino e às
obras do apostolado.
Daqui a possibilidade de que os religiosos e as religiosas, membros
de Institutos seculares e de outros Institutos de perfeição,
singularmente ou associados, desenvolvam um serviço seu às
famílias, com solicitude particular para com as crianças,
especialmente se abandonadas, indesejadas, órfãs,
pobres ou deficientes; visitando as famílias e tendo em atenção
especial os doentes; cultivando relações de respeito
e de caridade com as famílias incompletas, em dificuldade
ou desagregadas; oferecendo o próprio trabalho de ensino
e de consulta para a preparação dos jovens ao matrimónio
e para a ajuda aos casais em relação a uma procriação
verdadeiramente responsável; abrindo as próprias casas
à hospitalidade simples e cordial, a fim de que as famílias
possam encontrar lá o sentido de Deus, o gosto da oração
e do recolhimento, o exemplo concreto de uma vida vivida em caridade
e alegria fraterna como membros de uma família maior que
é a de Deus.
Desejo acrescentar uma exortação mais solícita
aos responsáveis dos Institutos de vida consagrada, para
que queiram considerar - sempre no respeito substancial pelo seu
carisma original e próprio - o apostolado ao serviço
das famílias como um dos deveres prioritários, tornado
mais urgente pelo estado hodierno das coisas.
Leigos especializados
75. Podem prestar grande ajuda às famílias os leigos
especializados (médicos, juristas, psicólogos, assistentes
sociais, consulentes, etc....) quer individualmente quer empenhados
em diversas associações e iniciativas, com trabalho
de esclarecimento, de conselho, de orientação, de
apoio. A eles bem podem aplicar-se as exortações que
tive ocasião de dirigir à Conferência dos consulentes
familiares de inspiração cristã: «A vossa
tarefa bem merece o qualificativo de missão, tão nobres
são as finalidades que visa e tão determinantes, para
o bem da sociedade e da mesma comunidade cristã, os resultados
que dela derivam... Tudo o que conseguirdes fazer em favor da família
é destinado a ter uma eficácia que, ultrapassando
o âmbito próprio, chegará também a outras
pessoas e influirá sobre a sociedade. O futuro do mundo e
da Igreja passa através da família».
Usuários e operadores da comunicacão social
76. Deve reservar-se uma palavra para esta categoria tão
importante na vida moderna. É mais que sabido que os instrumentos
de comunicação social «influem, e muitas vezes
profundamente, quer sob o aspecto afectivo e intelectual, quer sob
o aspecto moral e religioso, no animo de quantos os usam»,
especialmente se jovens. Podem ter um influxo benéfico sobre
a vida e sobre os costumes da família e sobre a educação
dos filhos, mas escondem também «insídias e
perigos consideráveis», e poder-se-ão tornar
veículo - às vezes hábil e sistematicamente
manobrado como infelizmente acontece em vários países
do mundo - de ideologias desagregadoras e de visões deformadas
da vida, da família, da religião, da moralidade, não
respeitosas da verdadeira dignidade e do destino do homem.
Perigo tanto mais real, enquanto «o modo hodierno de viver
- principalmente nas nações mais industrializadas
- leva bastantes vezes as famílias a descarregarem-se das
suas responsabilidades educativas, encontrando na facilidade de
evasão (representada, em casa, especialmente pela televisão
e por certas publicações) o meio de terem ocupado
o tempo e as actividades das crianças e dos jovens».
Daqui «o dever ... de proteger especialmente as crianças
e os jovens das "agressões" que sofrem por parte
dos mass-media», procurando usá-los em família
de modo cuidadosamente regrado. Assim também deveria preocupar
a família encontrar para os seus filhos outros divertimentos
mais sadios, mais úteis e formativos física, moral
e espiritualmente, «para potenciar e valorizar o tempo livre
dos jovens e encaminhar-lhes as energias».
Já que os instrumentos de comunicação social
- ao mesmo tempo que a escola e o ambiente - influem muitas vezes
notavelmente na formação dos filhos, os pais, enquanto
usuários, devem constituir-se parte activa no seu uso moderado,
crítico, vigilante e prudente, individuando qual a repercussão
tida nos filhos, e exercendo mediação orientadora
«de educar a consciência dos filhos a exprimir juízos
serenos e objectivos, que depois a guiem na escolha e na rejeição
dos programas propostos».
Com idêntico interesse, os pais procurarão influir
na escolha e na preparação dos programas, mantendo-se
- com iniciativas oportunas - em contacto com os responsáveis
dos vários momentos da produção e da transmissão
para se assegurarem que não serão abusivamente postos
de lado ou expressamente conculcados aqueles valores humanos fundamentais
que fazem parte do verdadeiro bem comum da sociedade, mas, pelo
contrário, sejam difundidos programas aptos a apresentar,
na sua verdadeira óptica, os problemas da família
e a sua adequada solução. A tal propósito o
meu predecessor de veneranda memória, Paulo VI, escrevia:
«Os produtores devem conhecer e respeitar as exigências
da família, o que supõe, por vezes, uma grande coragem
e sempre um alto sentido de responsabilidade. Com efeito, devem
evitar tudo o que possa lesar a família na sua existência,
na sua estabilidade, no seu equilíbrio, na sua felicidade.
A ofensa aos valores fundamentais da família - trate-se de
erotismo ou de violência, de apologia do divórcio ou
de atitudes anti-sociais dos jovens - é uma ofensa ao bem
verdadeiro do homem».
E eu mesmo, em ocasião análoga fazia notar que as
famílias «devem poder contar não pouco com a
boa vontade, rectidão e sentido de responsabilidade dos profissionais
dos media: editores, escritores, produtores, directores, dramaturgos,
informadores, comentadores e actores». Por isso, é
imperioso que também a Igreja continue a dedicar toda a atenção
a estas categorias de res ponsáveis, encorajando e sustentando,
ao mesmo tempo, aqueles católicos que se sentem chamados
e que tem dotes, a um empenhamento neste sector tão delicado.
IV - A PASTORAL FAMILIAR NOS CASOS
DIFÍCEIS
Circunstâncias particulares
77. Um empenho pastoral ainda mais generoso, inteligente e prudente,
na linha do exemplo do Bom Pastor, é pedido para aquelas
famílias que - muitas vezes independentemente da própria
vontade ou pressionadas por outras exigências de natureza
diversa - se encontram em situações objectivamente
difíceis.
A este propósito é necessário voltar especialmente
a atenção para algumas categorias particulares, mais
necessitadas não só de assistência, mas de uma
acção mais incisiva sobre a opinião pública
e sobretudo sobre as estruturas culturais, económicas e jurídicas,
a fim de se poderem eliminar ao máximo as causas profundas
do seu mal-estar.
Tais são, por exemplo, as famílias dos emigrantes
por motivos de trabalho; as famílias de quantos são
obrigados a ausências longas, como, por exemplo, os militares,
os marinheiros, os itinerantes de todo o tipo; as famílias
dos presos, dos prófugos e dos exilados; as famílias
que vivem praticamente marginalizadas nas grandes cidades; aquelas
que não têm casa, as incompletas ou «monoparentais»;
as famílias com filhos deficientes ou drogados; as famílias
dos alcoólatras; as desenraizadas do seu ambiente social
e cultural ou em risco de perdê-lo; as discriminadas por motivos
políticos ou por outras razões; as famílias
ideologicamente divididas; as que dificilmente conseguem ter um
contacto com a paróquia; as que sofrem violência ou
tratamentos injustos por causa da própria fé; as que
se compõem de cônjuges menores; os anciãos,
não raramente forçados a viver na solidão e
sem meios adequados de subsistência.
As famílias dos emigrantes, tratando-se especialmente de
operários e de agricultores devem encontrar em toda a parte,
na Igreja, a sua pátria. É este um dever conatural
à Igreja, sendo como é sinal de unidade na diversidade.
Na medida do possível sejam assistidos pelos sacerdotes do
seu próprio rito, cultura e idioma. Diz respeito também
à Igreja apelar à consciência pública
e a quantos exercem a autoridade sobre a vida social, económica
e política, para que os operários encontrem trabalho
na sua região e pátria. sejam retribuídos com
um salário justo, as famílias se voltem a unir o mais
depressa possível, sejam consideradas na sua identidade cultural,
tratadas como as outras e aos seus filhos sejam dadas oportunidades
de formação profissional e de exercício da
profissão, como também da posse da terra necessária
para trabalhar e viver.
Um problema difícil é o das famílias ideologicamente
divididas. Nestes casos há necessidade de um particular cuidado
pastoral. Antes de tudo é preciso, com discrição,
manter um contacto pessoal com tais famílias. Os crentes
devem ser fortificados na fé e sustentados na vida cristã.
Embora a parte fiel ao catolicismo não possa ceder, é
preciso manter sempre vivo o diálogo com a outra parte. Devem
ser multiplicadas as manifestações de amor e de respeito,
na esperança firme de manter intocável a unidade.
Depende muito também das relações entre pais
e filhos. As ideologias estranhas à fé poderão
estimular os membros crentes da família a crescer na fé
e no testemunho de amor. Outros momentos difíceis em que
a família tem necessidade de ajuda da comunidade eclesial
e dos seus pastores, podem ser: a irrequieta adolescência
contestadora e às vezes tumultuosa dos filhos; o seu matrimónio,
que os separa da família de origem; a incompreensão
ou a falta de amor da parte das pessoas mais queridas; o abandono
do cônjuge ou a sua perda, que faz começar a experiência
dolorosa da viuvez, a morte de um familiar, que mutila e transforma
em profundidade o núcleo originário da família.
Igualmente não pode ser transcurado pela Igreja o momento
da velhice, com todos os seus conteúdos positivos e negativos:
de possível aprofundamento do amor conjugal sempre mais purificado
e enobrecido pela longa e sempre contínua fidelidade; de
disponibilidade a pôr ao serviço dos outros, em forma
nova, a bondade e a sabedoria acumuladas e as energias que permanecem;
de dura solidão, mais frequentemente psicológica e
afectiva que física, por um abandono eventual ou por uma
atenção insuficiente dos filhos e dos parentes; de
sofrimento pela doença, pelo progressivo declínio
das forças, pela humilhação de ter que depender
de outros, pela amargura de se sentir talvez um peso para os seus
próprios entes queridos, pelo aproximar-se o fim da vida.
São estas as ocasiões em que - como insinuaram os
Padres Sinodais - mais facilmente se compreendem e vivem aqueles
elevados aspectos da espiritualidade matrimonial e familiar, que
se inspiram no valor da Cruz e ressurreição de Cristo,
fonte de santificação e de profunda alegria na vida
quotidiana, à luz das grandes realidades escatológicas
da vida eterna.
Em todas estas variadas situações nunca se descuide
a oração, fonte de luz, de força e alimento
da esperança cristã.
Matrimónios mistos
78. O número crescente dos matrimónios entre católicos
e outros baptizados exige uma peculiar atenção pastoral
à luz das orientações e das normas, contidas
nos mais recentes documentos da Santa Sé e das Conferências
episcopais, para uma aplicação concreta às
diversas situações.
Os casais que vivem em matrimónio misto apresentam exigências
peculiares, que se podem reduzir a três aspectos fundamentais.
Antes de tudo, considerem-se as obrigações da parte
católica derivantes da fé, no que concernem ao seu
livre exercício e a consequente obrigação de
providenciar, segundo as próprias forças, ao baptismo
e à educação dos filhos na fé católica.
É necessário ter presente as particulares dificuldades
inerentes às relações entre marido e mulher
no que diz respeito à liberdade religiosa: esta pode ser
violada seja por pressões indevidas para obter a mudança
de convicções religiosas do ou da consorte, seja por
impedimentos postos à sua livre manifestação
na prática religiosa.
No que diz respeito à forma litúrgica e canónica
do matrimónio, os Ordinários podem usar amplamente
das suas faculdades para as várias necessidades.
No tratamento destas exigências especiais é preciso
ter em conta os pontos seguintes:
• na preparação própria para este tipo
de matrimónio, deve ser feito um esforço razoável
para proporcionar um bom conhecimento da doutrina católica
sobre as qualidades e exigências do matrimónio, como
também para se certificar de que no futuro não se
verifiquem as pressões e os obstáculos, de que até
agora se tem tratado;
• é de suma importância que, com o apoio da comunidade,
a parte católica seja fortificada na fé e ajudada
positivamente a amadurecer na sua compreensão e na sua prática,
de modo a tornar-se testemunha autêntica no seio da família,
mediante a vida e a qualidade de amor demonstrado ao cônjuge
e aos filhos.
Os matrimónios entre católicos e outros baptizados,
na sua fisionomia particular, apresentam numerosos elementos que
convêm valorizar e desenvolver, quer pelo seu valor intrínseco,
quer pela ajuda que podem dar ao movimento ecuménico. Isto
é verdade de um modo particular quando os dois cônjuges
são fiéis aos seus deveres religiosos. O baptismo
comum e o dinamismo da graça fornecem aos esposos, nestes
matrimónios, a base e a motivação para exprimir
a sua unidade na esfera dos valores morais e espirituais.
Para tal fim, e mesmo para pôr em evidência a importância
ecuménica de um tal matrimónio misto, vivido plenamente
na fé pelos dois cônjuges cristãos, procure-se
- mesmo que nem sempre seja fácil - uma colaboração
cordial entre o ministro católico e o não católico,
desde o momento da preparação para o matrimónio
e para as núpcias.
Quanto à participação do cônjuge não
católico na comunhão eucarística, sigam-se
as normas emanadas do Secretariado para a união dos cristãos.
Em várias partes do mundo nota-se, hoje, um crescente número
de matrimónios entre católicos e não baptizados.
Em muitos casos o cônjuge não baptizado professa uma
outra religião e as suas convicções devem ser
tratadas com respeito, segundo os princípios da Declaração
Nostra Aetate do Concílio Ecuménico Vaticano II sobre
as relações com as religiões não cristãs;
mas em muitos outros, particularmente nas sociedades secularizadas,
a pessoa não baptizada não professa religião
alguma. Para estes matrimónios é necessário
que as Conferências episcopais e cada bispo tomem medidas
pastorais adequadas, a fim de garantir a defesa da fé do
cônjuge católico e o seu livre exercício, principalmente
no que se refere ao dever de fazer quanto estiver ao seu alcance
para que os filhos sejam baptizados e educados catolicamente. O
cônjuge católico deve ser, além disso, apoiado
em todos os modos no empenhamento de oferecer à própria
família um genuino testemunho de fé e de vida católica.
Acção pastoral perante algumas situações
irregulares
79. Na sua solicitude pela tutela da família em todas as
suas dimensões, não somente na dimensão religiosa,
o Sinodo dos Bispos não deixou de prestar atenta consideração
a algumas situações irregulares, religiosa e muitas
vezes também civilmente, que - nas rápidas mudanças
culturais hodiernas - se vão infelizmente difundindo mesmo
entre os católicos, com não pequeno dano do instituto
familiar e da sociedade, de que constitui a célula fundamental.
a) O matrimónio à experiência
80. Uma primeira situação irregular é dada
pelo que se chama «matrimónio à experiência»,
que hoje muitos querem justificar, atribuindo-lhe um certo valor.
A razão humana insinua já a sua não aceitação,
mostrando quanto seja pouco convincente que se faça uma «experiência»
em relação a pessoas humanas, cuja dignidade exige
que sejam elas só e sempre, o termo do amor de doação
sem limite algum nem de tempo nem de qualquer outra circunstância.
Por sua parte, a Igreja não pode admitir um tal tipo de união
por ulteriores motivos, originais, derivantes da fé. Por
um lado, com efeito, o dom do corpo na relação sexual
é símbolo real da doação de toda a pessoa:
uma doação tal que, além do mais, na actual
economia da salvação não pode actuar-se com
verdade plena sem o concurso do amor de caridade, dado por Cristo.
Por outro lado, o matrimónio entre duas pessoas baptizadas
é o símbolo real da união de Cristo com a Igreja,
uma união não temporária ou «à
experiência», mas eternamente fiel; entre dois baptizados,
portanto, não pode existir senão um matrimónio
indissolúvel.
Ordinariamente tal situação não poder ser superada
se a pessoa humana, desde a infancia, com a ajuda da graça
de Cristo e sem temores, não for educada para o domínio
da concupiscência nascente e para estabelecer com os outros
relações de amor genuíno. Isso não se
consegue sem uma verdadeira educação para o amor autêntico
e para o recto uso da sexualidade, de modo a introduzir a pessoa
humana em todas as suas dimensões, mesmo no referente ao
próprio corpo, na plenitude do mistério de Cristo.
Seria muito útil indagar sobre as causas deste fenómeno,
também no seu aspecto psicológico e sociológico,
para chegar a uma terapia adequada.
b) Uniões livres de facto
81. Trata-se de uniões sem nenhum vínculo institucional,
civil ou religioso, publicamente reconhecido. Este fenómeno
- cada vez mais frequente - não deixará de chamar
a atenção dos pastores, exactamente porque existindo
na sua base elementos muito diversos, será possível
actuar sobre eles e limitar-lhes as consequências.
Alguns, com efeito, consideram-se quase constrangidos a tais uniões
por situações difíceis de carácter económico,
cultural e religioso, já que contraindo um matrimónio
regular, seriam expostos a um dano, à perda de vantagens
económicas, à discriminação, etc. Outras,
pelo contrário, fazem-no numa atitude de desprezo, de contestação
ou de rejeição da sociedade, do instituto familiar,
do ordenamento socio-político, ou numa busca única
de prazer. Outros, enfim, são obrigados pela extrema ignorancia
e pobreza, às vezes por condicionamentos verificados por
situações de verdadeira injustiça, ou também
de uma certa imaturidade psicológica, que os torna incertos
e duvidosos na contracção de um vínculo estável
e definitivo. Em alguns países os costumes tradicionais prevêem
o matrimónio verdadeiro e próprio só depois
de um período de coabitação e depois do nascimento
do primeiro filho.
Cada um destes elementos põe à Igreja árduos
problemas pastorais, pelas graves consequências quer religiosas
e morais (perda do sentido religioso do matrimónio à
luz da Aliança de Deus com o seu Povo; privação
da graça do sacramento; escandalo grave), quer também
sociais (destruição do conceito de família;
enfraquecimento do sentido de fidelidade mesmo para com a sociedade;
possíveis traumas psicológicos nos filhos; afirmação
do egoísmo).
Os pastores e a comunidade eclesial serão diligentes em conhecer
tais situações e as suas causas concretas, caso por
caso; em aproximar-se dos conviventes com discrição
e respeito; em esforçar-se com uma acção de
esclarecimento paciente, de caridosa correcção, de
testemunho familiar cristão, que lhes possa aplanar o caminho
para regularizar a situação. Faça-se, sobretudo,
obra de prevenção, cultivando o sentido da fidelidade
na educação moral e religiosa dos jovens, instruindo-os
acerca das condições e das estruturas que favorecem
tal fidelidade, sem a qual não há verdadeira liberdade,
ajudando-os a amadurecer espiritualmente e fazendo-lhes compreender
a riqueza da realidade humana e sobrenatural do matrimónio-sacramento.
O Povo de Deus actue também junto das autoridades públicas,
para que, resistindo a estas tendências desagregadoras da
própria sociedade e prejudiciais à dignidade, segurança
e bem-estar dos cidadãos, a opinião pública
não seja induzida a menosprezar a importância institucional
do matrimónio e da família. E já que em muitas
regiões, pela pobreza extrema derivante de estruturas sócio-económicas
injustas ou inadequadas, os jovens não estão em condições
de se casarem como convém, a sociedade e as autoridades públicas
favoreçam o matrimónio legítimo mediante uma
série de intervenções sociais e políticas,
garantindo o salário familiar, emanando disposições
para uma habitação adaptada à vida familiar,
criando possibilidades adequadas de trabalho e de vida.
c) Católicos unidos só
em matrimónio civil
82. Difunde-se sempre mais o caso de católicos que, por motivos
ideológicos e práticos, preferem contrair só
matrimónio civil, rejeitando ou pelo menos adiando o religioso.
A sua situação não se pode equiparar certamente
à dos simples conviventes sem nenhum vinculo, pois que ali
se encontra ao menos um empenhamento relativo a um preciso e provavelmente
estável estado de vida, mesmo se muitas vezes não
está afastada deste passo a perspectiva de um eventual divórcio.
Procurando o reconhecimento público do vínculo da
parte do Estado, tais casais mostram que estão dispostos
a assumir, com as vantagens também as obrigações.
Não obstante, tal situacão não é aceitável
por parte da Igreja.
A acção pastoral procurará fazer compreender
a necessidade da coerência entre a escolha de um estado de
vida e a fé que se professa, e tentará todo o possível
para levar tais pessoas a regularizar a sua situação
à luz dos princípios cristãos. Tratando-as
embora com muita caridade, e interessando-as na vida das respectivas
comunidades, os pastores da Igreja não poderão infelizmente
admiti-las aos sacramentos.
d) Separados e divorciados sem segunda
união
83. Motivos diversos, quais incompreensões recíprocas,
incapacidade de abertura a relações interpessoais,
etc. podem conduzir dolorosamente o matrimónio válido
a uma fractura muitas vezes irreparável. Obviamente que a
separação deve ser considerada remédio extremo,
depois que se tenham demonstrado vãs todas as tentativas
razoáveis.
A solidão e outras dificuldades são muitas vezes herança
para o cônjuge separado, especialmente se inocente. Em tal
caso, a comunidade eclesial deve ajudá-lo mais que nunca;
demonstrar-lhe estima, solidariedade, compreensão e ajuda
concreta de modo que lhe seja possível conservar a fidelidade
mesmo na situação difícil em que se encontra;
ajudá-lo a cultivar a exigência do perdão própria
do amor cristão e a disponibilidade para retomar eventualmente
a vida conjugal anterior.
Análogo é o caso do cônjuge que foi vítima
de divórcio, mas que - conhecendo bem a indissolubilidade
do vínculo matrimonial válido - não se deixa
arrastar para uma nova união, empenhando-se, ao contrário,
unicamente no cumprimento dos deveres familiares e na responsabilidade
da vida cristã. Em tal caso, o seu exemplo de fidelidade
e de coerência cristã assume um valor particular de
testemunho diante do mundo e da Igreja, tornando mais necessária
ainda, da parte desta, uma acção contínua de
amor e de ajuda, sem algum obstáculo à admissão
aos sacramentos.
e) Divorciados que contraem nova união
84. A experiência quotidiana mostra, infelizmente, que quem
recorreu ao divórcio tem normalmente em vista a passagem
a uma nova união, obviamente não com o rito religioso
católico. Pois que se trata de uma praga que vai, juntamente
com as outras, afectando sempre mais largamente mesmo os ambientes
católicos, o problema deve ser enfrentado com urgência
inadiável. Os Padres Sinodais estudaram-no expressamente.
A Igreja, com efeito, instituída para conduzir à salvação
todos os homens e sobretudo os baptizados, não pode abandonar
aqueles que - unidos já pelo vínculo matrimonial sacramental
- procuraram passar a novas núpcias. Por isso, esforçar-se-á
infatigavelmente por oferecer-lhes os meios de salvação.
Saibam os pastores que, por amor à verdade, estão
obrigados a discernir bem as situações. Há,
na realidade, diferença entre aqueles que sinceramente se
esforçaram por salvar o primeiro matrimónio e foram
injustamente abandonados e aqueles que por sua grave culpa destruíram
um matrimónio canonicamente válido. Há ainda
aqueles que contraíram uma segunda união em vista
da educação dos filhos, e, às vezes, estão
subjectivamente certos em consciência de que o prece dente
matrimónio irreparavelmente destruído nunca tinha
sido válido.
Juntamente com o Sínodo exorto vivamente os pastores e a
inteira comunidade dos fiéis a ajudar os divorciados, promovendo
com caridade solícita que eles não se considerem separados
da Igreja, podendo, e melhor devendo, enquanto baptizados, participar
na sua vida. Sejam exortados a ouvir a Palavra de Deus, a frequentar
o Sacrifício da Missa, a perseverar na oração,
a incrementar as obras de caridade e as iniciativas da comunidade
em favor da justiça, a educar os filhos na fé cristã,
a cultivar o espírito e as obras de penitência para
assim implorarem, dia a dia, a graça de Deus. Reze por eles
a Igreja, encoraje-os, mostre-se mãe misericordiosa e sustente-os
na fé e na esperança.
A Igreja, contudo, reafirma a sua práxis, fundada na Sagrada
Escritura, de não admitir à comunhão eucarística
os divorciados que contraíram nova união. Não
podem ser admitidos, do momento em que o seu estado e condições
de vida contradizem objectivamente aquela união de amor entre
Cristo e a Igreja, significada e actuada na Eucaristia. Há,
além disso, um outro peculiar motivo pastoral: se se admitissem
estas pessoas à Eucaristia, os fiéis seriam induzidos
em erro e confusão acerca da doutrina da Igreja sobre a indissolubilidade
do matrimónio.
A reconciliação pelo sacramento da penitência
- que abriria o caminho ao sacramento eucarístico - pode
ser concedida só àqueles que, arrependidos de ter
violado o sinal da Aliança e da fidelidade a Cristo, estão
sinceramente dispostos a uma forma de vida não mais em contradição
com a indissolubilidade do matrimónio. Isto tem como consequência,
concretamente, que quando o homem e a mulher, por motivos sérios
- quais, por exemplo, a educação dos filhos - não
se podem separar, «assumem a obrigação de viver
em plena continência, isto é, de abster-se dos actos
próprios dos cônjuges».
Igualmente o respeito devido quer ao sacramento do matrimónio
quer aos próprios cônjuges e aos seus familiares, quer
ainda à comunidade dos fiéis proíbe os pastores,
por qualquer motivo ou pretexto mesmo pastoral, de fazer em favor
dos divorciados que contraem uma nova união, cerimónias
de qualquer género. Estas dariam a impressão de celebração
de novas núpcias sacramentais válidas, e consequentemente
induziriam em erro sobre a indissolubilidade do matrimónio
contraído validamente.
Agindo de tal maneira, a Igreja professa a própria fidelidade
a Cristo e à sua verdade; ao mesmo tempo comporta-se com
espírito materno para com estes seus filhos, especialmente
para com aqueles que sem culpa, foram abandonados pelo legítimo
cônjuge.
Com firme confiança ela vê que, mesmo aqueles que se
afastaram do mandamento do Senhor e vivem agora nesse estado, poderão
obter de Deus a graça da conversão e da salvação,
se perseverarem na oração, na penitência e na
caridade.
Os sem-família
85. Desejo ainda acrescentar uma palavra para uma categoria de pessoas
que, pela situação concreta em que se encontram -
e muitas vezes não por sua vontade deliberada - eu considero
particularmente junto do Coração de Cristo e dignas
do afecto e da solicitude da Igreja e dos pastores.
Infelizmente há no mundo muitíssimas pessoas que não
podem referir-se de modo algum ao que poderia definir-se em sentido
próprio uma família. Grandes sectores da humanidade
vivem em condições de enorme pobreza, em que a promiscuidade,
a carência de habitações, a irregularidade e
instabilidade das relações, a falta extrema de cultura
não permitem praticamente poder falar de verdadeira família.
Há outras pessoas que, por motivos diversos, ficaram sós
no mundo. Também para todos estes há um «bom
anúncio da família».
Em favor de quantos vivem na pobreza extrema, já falei da
necessidade urgente de trabalhar com coragem para se encontrarem
soluções mesmo a nível político, que
consintam ajudar a superar estas condições desumanas
de prostração. É um dever que incumbe, solidariamente,
à sociedade inteira, mas de uma maneira especial às
autoridades pela força do seu cargo e das responsabilidades
consequentes, assim como às famílias, que devem demonstrar
grande compreensão e vontade de ajudar.
Àqueles que não têm uma família natural,
é preciso abrir ainda mais as portas da grande família
que é a Igreja, concretizada na família diocesana
e paroquial, nas comunidades eclesiais de base ou nos movimentos
apostólicos. Ninguém está privado da família
neste mundo: a Igreja é casa e família para todos,
especialmente para quantos estão «cansados e oprimidos».
CONCLUSÃO
A vós esposos, a vós pais e mães de família;
a vós, jovens e donzelas, que sois o futuro e a esperança
da Igreja e do mundo e construireis o núcleo que garantirá
e dinamizará a família no terceiro milénio
que se aproxima;
a vós, veneráveis e caros Irmãos no episcopado
e no sacerdócio, queridos filhos religiosos e religiosas,
almas consacradas ao Senhor, que testemunhais aos esposos a realidade
última do amor de Deus;
a vós, homens todos de coração recto, que por
razões diversas vos preocupais da situação
da família, dirige-se com trepidante solicitude, a minha
atenção ao final desta Exortação Apostólica.
O futuro da humanidade passa pela família!
É pois indispensável e urgente que cada homem de boa
vontade se empenhe em salvar e promover os valores e as exigências
da família.
Sinto-me no dever de pedir aos filhos da Igreja um esforço
especial neste campo. Conhecendo plenamente, pela fé, o maravilhoso
plano de Deus, eles têm uma razão mais para se dedicar
à realidade da família neste nosso tempo de prova
e de graça.
Devem amar particularmente a família. É o que concreta
e exigentemente vos confio.
Amar a família significa saber estimar os seus valores e
possibilidades, promovendo-os sempre. Amar a família significa
descobrir os perigos e os males que a ameaçam, para poder
superá-los. Amar a família significa empenhar-se em
criar um ambien te favorável ao seu desenvolvimento. E, por
fim, forma eminente de amor à família cristã
de hoje, muitas vezes tentada por incomodidades e angustiada por
crescentes dificuldades, é dar-lhe novamente razões
de confiança em si mesma, nas riquezas próprias que
lhe advém da natureza e da graça e na missão
que Deus lhe confiou. «É necessário que as famílias
do nosso tempo tomem novamente altura! É necessário
que sigam a Cristo».
Compete ainda aos cristãos a tarefa de anunciar com alegria
e convicção a «boa nova» acerca da família,
que tem necessidade absoluta de ouvir e de compreender sempre mais
profundamente as palavras autênticas que lhe revelam a sua
identidade, os seus recursos interiores, a importancia da sua missão
na Cidade dos homens e na de Deus.
A Igreja conhece o caminho pelo qual a família pode chegar
ao coração da sua verdade profunda. Este caminho,
que a Igreja aprendeu na escola de Cristo e da história interpretada
à luz do Espírito, não o impõe, mas
sente a exigência indeclinável de o propor a todos
sem medo, com grande confiança e esperança, sabendo,
porém, que a «boa nova» conhece a linguagem da
Cruz. É, no entanto, através da Cruz que a família
pode atingir a plenitude do seu ser e a perfeição
do seu amor.
Desejo, por fim, convidar todos os cristãos a colaborar,
carinhosa e corajosamente, com todos os homens de boa vontade, que
vivem a responsabilidade própria no serviço à
família. Os que dentro da Igreja, em seu nome e sob a sua
inspiração, quer individualmente quer em grupos, movimentos
ou associações, se consagram ao bem da família,
encontram muitas vezes a seu lado pessoas e instituições
empenhadas no mesmo ideal. Na fidelidade aos valores do Evangelho
e do homem e no respeito a um legítimo pluralismo de iniciativas,
esta colaboração poderá favorecer uma mais
rápida e integral promoção da família.
E agora, ao concluir esta mensagem pastoral, que visa chamar a atenção
de todos sobre as pesadas mas fascinantes tarefas da família
cristã, desejo invocar a protecção da Família
de Nazaré.
Por misterioso desígnio de Deus, nela viveu o Filho de Deus
escondido por muitos anos: é, pois, protótipo e exemplo
de todas as famílias cristãs. E aquela Família,
única no mundo, que passou uma existência anónima
e silenciosa numa pequena localidade da Palestina; que foi provada
pela pobreza, pela perseguição, pelo exílio;
que glorificou a Deus de modo incomparavelmente alto e puro, não
deixará de ajudar as famílias cristãs, ou melhor,
todas as famílias do mundo, na fidelidade aos deveres quotidianos,
no suportar as ansias e as tribulações da vida, na
generosa abertura às necessidades dos outros, no feliz cumprimento
do plano de Deus a seu respeito.
Que São José, «homem justo», trabalhador
incansável, guarda integérrimo dos penhores que lhe
foram confiados, as guarde, proteja e ilumine.
Que a Virgem Maria, Mãe da Igreja, seja também a Mãe
da «Igreja doméstica» e, graças ao seu
auxílio materno, cada família cristã possa
tornar-se verdadeiramente uma «pequena Igreja», na qual
se manifeste e reviva o mistério da Igreja de Cristo. Seja
Ela, a Escrava do Senhor, o exemplo de acolhimento humilde e generoso
da vontade de Deus; seja Ela, Mãe das Dores aos pés
da Cruz, a confortar e a enxugar as lágrimas dos que sofrem
pelas dificuldades das suas famílias.
E Cristo Senhor, Rei do Universo, Rei das famílias, como
em Caná, esteja presente em cada lar cristão a conceder-lhe
luz, felicidade, serenidade, fortaleza.
No dia solene dedicado à sua Realeza, peço que cada
família Lhe ofereça um contributo próprio,
original para a vinda no mundo do seu Reino, «Reino de verdade
e de vida, de santidade e de graça, de justiça, de
amor e de paz», para o qual se encaminha a história.
A Ele, a Maria e a José confio cada família. Nas suas
mãos e no seu coração ponho esta Exortação:
sejam Eles a transmiti-la a vós, veneráveis Irmãos
e dilectos filhos, e a abrir os vossos corações à
luz que o Evangelho irradia sobre cada família.
A todos e a cada um, assegurando a minha constante prece, concedo
de coração a Bênção Apostólica
em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Dado em Roma, junto de São
Pedro, no dia 22 de Novembro de 1981
Solenidade de N. S. Jesus Cristo Rei do Universo, quarto ano do
meu Pontificado.