O
SACRAMENTO DO MATRIMÔNIO
Matrimônio
no desígnio de Deus
"A
aliança matrimonial, pela qual o homem e a mulher constituem entre
si uma comunhão da vida toda, é ordenada por sua índole
natural ao bem dos cônjuges e à geração e educação
da prole, e foi elevada, entre os batizados, à dignidade de sacramento
por Cristo Senhor."
Matrimônio na Sagrada Escritura
O Matrimônio no desígnio de Deus A agrada Escritura abre-se
com a criação do homem e da mulher à imagem e semelhança
de Deus se fecha-se com a visão das "núpcias do Cordeiro"
(cf. Ap 19,7). De um extremo a outro, a Escritura fala do casamento e
de seu "mistério", de sua instituição e
do sentido que lhe foi dado por Deus, de sua origem e de seu fim, de suas
diversas realizações ao longo de história da salvação,
de suas dificuldades provenientes do pecado e de sua renovação
"no Senhor" (1Cor 7,39), na noa aliança de Cristo e da
Igreja.
O Matrimônio na Ordem da Criação
"A íntima comunhão de vida e de amor conjugal que o
Criador fundou e dotou com suas leis [... O próprio [... Deus é
o autor do matrimônio. "A vocação para o Matrimônio
está inscrita na própria natureza do homem e da mulher,
conforme saíram da mão do Criador. O casamento não
é uma instituição simplesmente humana, apesar das
inúmeras variações que sofreu no curso dos séculos,
nas diferentes culturas, estruturas sociais e atitudes espirituais. Essas
diversidades não devem fazer esquecer os traços comuns e
permanentes. Ainda que a dignidade desta instituição não
transpareça em toda parte com a mesma clareza, existe, contudo,
em todas as culturas, um certo sentido da grandeza da união matrimonial.
"A salvação da pessoa e da sociedade humana está
estreitamente ligada ao bem-estar da comunidade conjugal e familiar."
Deus, que criou o homem por amor, também o chamou para o amor,
vocação fundamental e inata de todo ser humano. Pois o homem
foi criado à imagem e semelhança de Deus, que é Amor.
Tendo-os Deus criado homem e mulher, seu amor mútuo se torna uma
imagem do amor absoluto e indefectível de Deus pelo homem. Esse
amor é bom, muito bom, aos olhos do Criador, que "é
amor" (1Jo 4,8.16). E esse amor abençoado por Deus é
destinado a ser fecundo e a realizar-se na obra comum de preservação
da criação: "Deus os abençoou e lhes disse:
Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a" (Gn
1,28).
Que o homem e a mulher tenham sido criados um para o outro, a sagrada
Escritura o afirma: "Não é bom que O homem esteja só"
(Gn 2,18). A mulher, "carne de sua carne", é, igual a
ele, bem próxima dele, lhe foi dada por Deus como um "auxilio",
representando, assim, "Deus, em quem está o nosso socorro".
"Por isso um homem deixa seu pai e sua mãe, se une à
sua mulher, e eles se tornam uma só carne" (Gn 2,24). Que
isto significa uma unidade indefectível de suas duas vidas, o próprio
Senhor no-lo mostra lembrando qual foi, 'na origem", o desígnio
do Criador (Cf Mt 19,4): "De modo que já não são
dois, mas uma só carne" (Mt 19,6).
O Casamento sob o Regime do Pecado
Todo homem sofre a experiência do mal, à sua volta e em si
mesmo. Esta experiência também se faz sentir nas relações
entre o homem e a mulher. Sua união sempre foi ameaçada
pela discórdia, pelo espírito de dominação,
pela infidelidade, pelo ciúme e por conflitos que podem chegar
ao ódio e à ruptura. Essa desordem pode manifestar-se de
maneira mais ou menos grave, e pode ser mais ou menos superada, segundo
as culturas, as épocas, os indivíduos. Tais dificuldades,
no entanto parecem ter um caráter universal.
Segundo a fé, essa desordem que dolorosamente constatamos não
vem da natureza do homem e da mulher, nem da natureza de suas relações,
mas do pecado. Tendo sido uma ruptura com Deus, o primeiro pecado tem,
como primeira conseqüência a ruptura da comunhão original
do homem e da mulher. Sua relações começaram a ser
deformadas por acusações recíprocas sua atração
mútua, dom do próprio Criador transforma-se relações
de dominação e de cobiça; a bela vocação
do homem e da mulher para ser fecundos, multiplicar-se e sujeitar a terra
é onerada pelas dores de parto e pelo suor do ganha-pão.
Não obstante, a ordem da criação subsiste, apesar
de gravemente perturbada. Para curar as feridas do pecado, o homem e a
mulher precisam da ajuda da graça que Deus, em sua misericórdia
infinita, jamais lhes recusou. Sem esta ajuda, homem e a mulher não
podem chegar a realizar a união de suas vidas para a qual foram
criados "no princípio".
O Casamento sob a Pedagogia da Lei
Em sua misericórdia, Deus não abandonou o homem pecador.
As penas que acompanham o pecado, "as dores da gravidade de dar à
luz (Cf Gn 3,16), o trabalho "com o suor de teu rosto" (Gn 3,19)
constituem também remédios que atenuam os prejuízos
do pecado. Após a queda, o casamento ajuda a vencer a centralização
em si mesmo, o egoísmo, a busca do próprio prazer, e a abrir-se
ao outro, à ajuda mútua, ao dom de si.
A consciência moral concernente à unidade e à indissolubilidade
do Matrimônio desenvolveu-se sob a pedagogia da lei antiga. A poligamia
dos patriarcas e dos reis ainda não fora explicitamente rejeitada.
Entretanto, a lei dada a Moisés visava proteger a mulher contra
o arbítrio é a dominação pelo homem, apesar
de também trazer, segundo a palavra do Senhor, os traços
da "dureza do coração" do homem, em razão
da qual Moisés permitiu o repúdio da mulher.
Examinando a aliança de Deus com Israel sob a imagem de um amor
conjugal exclusivo e fiel, os profetas prepararam a consciência
do povo eleito para uma compreensão mais profunda da unicidade
e indissolubilidade do Matrimônio. Os livros de Rute e de Tobias
dão testemunhos comoventes do elevado sentido do casamento, da
fidelidade e da ternura dos esposos. A Tradição sempre viu
no Cântico dos Cânticos uma expressão única
do amor humano, visto que é reflexo do amor de Deus, amor "forte
como a morte", que "as águas da torrente jamais poderão
apagar" (Ct 8,6-7).
O Casamento no Senhor
A aliança nupcial entre Deus e seu povo Israel havia preparado
a nova e eterna aliança na qual o Filho de Deus, encarnando-se
e entregando sua vida, uniu-se de certa maneira com toda a humanidade
salva por ele, preparando, assim, "as núpcias do Cordeiro
(Cf Ap 19,7 e 9).
No limiar de sua vida pública, Jesus opera seu primeiro sinal a
pedido de sua Mãe por ocasião de uma festa de casamento.
A Igreja atribui grande importância à presença de
Jesus nas núpcias de Caná. Vê nela a confirmação
de que o casamento é uma realidade boa e o anúncio de que,
daí em diante, ser ele um sinal eficaz da presença de Cristo.
A Celebração do Mistério Cristão Os Sete Sacramentos
da igreja. Em sua pregação, Jesus ensinou sem equívoco
o sentido o original da união do homem e da mulher, conforme quis
o Criador desde o começo. A permissão de repudiar a própria
mulher, concedida por Moisés, era uma concessão devida à
dureza do coração; a união matrimonial do homem e
da mulher é indissolúvel, pois Deus mesmo a ratificou: "O
que Deus uniu, o homem não deve separar" (Mt 19,6).
É provável que esta insistência sem equívoco
na indissolubilidade do vínculo matrimonial deixasse as pessoas
perplexas e aparecesse como uma exigência irrealizável. Todavia,
isso não quer dizer que Jesus tenha imposto um fardo impossível
de carregar e pesado demais para os ombros dos esposos, mais pesado que
a Lei de Moisés. Como Jesus veio para restabelecer ordem inicial
da criação perturbada pelo pecado, ele mesmo dá a
força e a graça para viver o casamento na nova dimensão
do Reino de Deus. E seguindo a Cristo, renunciando a si mesmos e tomando
cada um sua cruz que os esposos poderão "compreender"
o sentido original do casamento e vivê-lo com a ajuda de Cristo.
Esta graça do Matrimônio cristão é um fruto
da Cruz de Cristo, fonte de toda vida cristã.
É justamente isso que o apóstolo Paulo quer fazer entender
quando diz: "E vós, maridos, amai vossas mulheres, como Cristo
amou a Igreja e se entregou por ela, a fim de purificá-la"
(Ef 5,25-26), acrescentando imediatamente: "Por isso de deixar o
homem seu pai e sua mãe e se ligar à sua mulher, e serão
ambos uma só carne. E grande este mistério: refiro-me à
relação entre Cristo e sua Igreja" (Ef 5,31-32).
Toda a vida cristã traz a marca do amor esponsal de Cristo e da
Igreja. Já o Batismo, entrada no Povo de Deus, é um mistério
nupcial: é, por assim dizer, o banho das núpcias que precede
o banquete de núpcias, a Eucaristia. O Matrimônio cristão
se torna, por sua vez, sinal eficaz, sacramento da aliança de Cristo
e da Igreja. O Matrimônio entre batizados é um verdadeiro
sacramento da nova aliança, pois significa e comunica a graça.
A Virgindade por causa do Reino
Cristo é o centro de toda a vida cristã. O vínculo
com Ele está em primeiro lugar, na frente de todos os outros vínculos,
familiares ou sociais. Desde o começo da Igreja, houve homens e
mulheres que renunciaram ao grande bem do Matrimônio para seguir
o Cordeiro onde quer que fosse, para ocupar-se com as coisas do Senhor,
para procurar agradar-lhe, para ir ao encontro do Esposo que vem. O próprio
Cristo convidou alguns para segui-lo neste modo de vida, cujo modelo continua
sendo ele mesmo: Há eunucos que nasceram assim do ventre materno.
E há eunucos que foram feitos eunucos pelos homens. E há
eunucos que se fizeram eunucos por causa do Reino dos Céus. Quem
tiver capacidade para compreender compreenda! (Mt 19,12).
A virgindade pelo Reino dos Céus é um desdobramento da graça
batismal, um poderoso sinal da preeminência do vínculo com
Cristo, da ardente expectativa de seu regresso, um sinal que também
lembra que o Matrimônio é uma realidade da figura deste mundo
que passa.
Ambos, o sacramento do Matrimônio e a virgindade pelo Reino de Deus,
provêm do próprio Senhor. É Ele que lhes dá
sentido e concede a graça indispensável para vivê-los
em conformidade com sua vontade. A estima da virgindade por causa do Reino
e o sentido cristão do casamento são inseparáveis
e se ajudam mutuamente: Denegrir o Matrimônio é ao mesmo
tempo minorar a glória da virgindade; elogiá-lo é
realçar a admiração que se deve à virgindade...
Porque, afinal, o que não parece um bem senão em comparação
com um mal não pode ser verdadeiramente um bem, mas o que é
ainda melhor que bens incontestáveis é o bem por excelência.
A celebração do Matrimônio
No
rito latino, a celebração do Matrimônio entre dois
fiéis católicos normalmente ocorre dentro da santa missa,
em vista de vínculo de todos os sacramentos com o mistério
pascal de Cristo. Na Eucaristia se realiza o memorial da nova aliança,
na qual Cristo se uniu para sempre à Igreja, sua esposa bem-amada,
pela qual se entregou. Portanto, é conveniente que os esposos selem
seu consentimento de entregar-se um ao outro pela oferenda de suas próprias
vidas, unindo-o à oferenda de Cristo por sua Igreja que se toma
presente no Sacrifício Eucarístico, e recebendo Eucaristia,
a fim de que, comungando no mesmo Corpo e no mesmo Sangue de Cristo, eles
"formem um só corpo" nele.
"Como
gesto sacramental de santificação, a celebração
litúrgica do Matrimônio ... deve ser válida por si
mesma, digna e frutuosa." Convém, pois, que os futuros esposos
se disponham à celebração de seu casamento recebendo
o sacramento da Penitência.
Segundo a tradição latina, são os esposos que, como
ministros da graça de Cristo, se conferem mutuamente o sacramento
do Matrimônio, expressando diante da Igreja seu consentimento. Nas
tradições das Igrejas Orientais, os sacerdotes, Bispos ou
presbíteros, são testemunhas do consentimento recíproco
dos esposos, mas também é necessária a bênção
deles para a validade do sacramento.
As diversas liturgias são ricas em orações de bênção
e de epiclese para pedir a Deus a graça e a bênção
sobre o novo casal, especialmente sobre a esposa. Na epiclese deste sacramento,
os esposos recebem o Espírito Santo como comunhão de amor
de Cristo e da Igreja (Cf Ef 5,32). É Ele o selo de sua aliança,
a fonte que incessantemente oferece seu amor, a força em que se
renovar a fidelidade dos esposos.
O consentimento matrimonial
Os
protagonistas da aliança matrimonial são um homem e uma
mulher batizados, livres para contrair o Matrimônio e que expressam
livremente seu consentimento. "Ser livre" quer dizer:
* não sofrer constrangimento;
* não ser impedido por uma lei natural ou eclesiástica.
A
Igreja considera a troca de consentimento entre os esposos como elemento
indispensável "que produz o matrimônio" Se faltar
o consentimento, não há casamento.
O consentimento consiste num "ato humano pelo qual os cônjuges
se doam e se recebem mutuamente": "Eu te recebo por minha mulher"
- "Eu te recebo por meu marido. Este consentimento que liga os esposos
entre si encontra seu cumprimento no fato de "os dois se tomarem
uma só carne".
O consentimento deve ser um ato da vontade de cada um dos contraentes,
livre de violência ou de medo grave externo. Nenhum poder humano
pode suprir esse consentimento. Se faltar esta liberdade, o casamento
será inválido.
Por esta razão (ou por outras razões que tornam nulo e inexistente
o Matrimônio), a Igreja pode, após exame da situação
pelo tribunal eclesiástico competente, declarar "a nulidade
do casamento", isto é, que o casamento jamais existiu. Neste
caso, os contraentes ficam livres para casar-se, respeitando as obrigações
naturais provenientes de uma união anterior.
O sacerdote (ou o diácono) que assiste à celebração
do Matrimônio acolhe o consentimento dos esposos em nome da Igreja
e dá a bênção da Igreja. A presença
do ministro da Igreja (e também das testemunhas) exprime visivelmente
que o casamento é uma realidade eclesial.
É por esta razão que a Igreja normalmente exige de seus
fiéis a forma eclesiástica da celebração do
casamento. Diversas razões concorrem para explicar esta determinação:
* casamento-sacramento é um ato litúrgico. Por isso, convém
que seja celebrado na liturgia pública da Igreja.
* Matrimônio foi introduzido num ordo eclesial, cria direitos e
deveres na Igreja, entre os esposos e relativos à prole.
* Sendo o Matrimônio um estado de vida na Igreja, é necessário
que haja certeza a seu respeito (daí a obrigação
de haver testemunhas).
* caráter público do consentimento protege o mútuo
"Sim" que um dia foi dado e ajuda a permanecer-lhe fiel.
Para
que o "sim" dos esposos seja um ato livre e responsável
e para que a aliança matrimonial tenha bases humanas e cristãs
sólidas e duráveis, a preparação para o casamento
é de primeira importância:
O exemplo e o ensinamento dos pais e da família continuam sendo
o caminho privilegiado desta preparação.
O papel dos pastores e da comunidade cristã como "família
de Deus" é indispensável para a transmissão
dos valores humanos e cristãos do Matrimônio e da família,
e mais ainda porque em nossa época muitos jovens conhecem a experiência
dos lares desfeitos que não garantem mais suficientemente esta
iniciação (feita dentro da família):
Os jovens devem ser instruídos convenientemente e a tempo sobre
a dignidade, a função e o exercício do amor conjugal,
a fim de que, preparados no cultivo da castidade, possam passar, na idade
própria, do noivado honesto para as núpcias.
Os
casamentos mistos e a disparidade de culto
Em muitos países, a situação do casamento misto (entre
católico e batizado não-católico) se apresenta com
muita freqüência. Isso exige uma atenção particular
dos cônjuges e dos pastores. O caso dos casamentos com disparidade
de culto (entre católico e não-batizado) exige uma circunspecção
maior ainda.
A diferença de confissão entre os cônjuges não
constitui obstáculos insuperável para o casamento, desde
que consigam pôr em comum o que cada um deles recebeu em sua comunidade
e aprender um do outro o modo de viver sua fidelidade a Cristo. Mas nem
por isso devem ser subestimadas as dificuldades dos casamentos mistos.
Elas se devem ao fato de que a separação dos cristãos
é uma questão ainda não resolvida. Os esposos correm
o risco de sentir o drama da desunião dos cristãos no seio
do próprio lar. A disparidade de culto pode agravar ainda mais
essas dificuldades. As divergências concernentes à fé,
à própria concepção do casamento, como também
mentalidades religiosas diferentes, podem constituir uma fonte de tensões
no casamento, principalmente no que tange à educação
dos filhos. Uma tentação pode então apresentar-se:
a indiferença religiosa.
Conforme o direito em vigor na Igreja Latina, um casamento misto exige,
para sua liceidade, a permissão expressa da autoridade eclesiástica.
Em caso de disparidade de culto, requer-se uma dispensa expressa do impedimento
para a validade do casamento. Esta permissão ou esta dispensa supõem
que as duas partes conheçam e não excluam os fins e as propriedades
essenciais do casamento, e também que a parte católica confirme
o empenho, com o conhecimento também da parte não-católica,
de conservar a própria fé e assegurar o batismo e a educação
dos filhos na Igreja católica. Em muitas regiões, graças
ao diálogo ecumênico, as comunidades cristãs envolvidas
conseguiram criar uma pastoral comum para os casamentos mistos. Sua tarefa
é ajudar esses casais a viver sua situação particular
à luz da fé. Deve também ajudá-los a superar
as tensões entre as obrigações que um tem para com
o outro e suas obrigações para com suas comunidades eclesiais,
além de incentivar o desabrochar daquilo que lhes é comum
na fé e o respeito por tudo que os separa.
Nos casamentos com disparidade de culto, o cônjuge católico
tem uma missão particular: "Pois o marido não-cristão
é santificado pela esposa, e a esposa não-cristã
é santificada pelo marido cristão" (1Cor 7,14). Ser
uma grande alegria para o cônjuge cristão e para a Igreja
se esta "santificação" levar o cônjuge à
livre conversão à fé cristã. O amor conjugal
sincero, a humilde e paciente prática das Virtudes familiares e
a oração perseverante podem preparar o cônjuge não-cristão
a acolher a graça da conversão.
Os efeitos do sacramento do Matrimônio "Do Matrimônio
válido origina-se entre os cônjuges um vínculo que,
por sua natureza, é perpétuo e exclusivo; além disso,
no Matrimônio cristão, os cônjuges são robustecidos
e como que consagrados por um sacramento especial aos deveres e à
dignidade de seu estado."
O Vínculo Matrimonial
O consentimento pelo qual os esposos se entregam e se acolhem mutuamente
é selado pelo próprio Deus. De sua aliança "se
origina também diante da sociedade uma instituição
firmada por uma ordenação divina". A aliança
dos esposos é integrada na aliança de Deus com os homens:
"O autêntico amor conjugal é assumido no amor divino".
O vínculo matrimonial é, pois, estabelecido pelo próprio,
Deus, de modo que o casamento realizado e consumado entre batizados jamais
pode ser dissolvido. Este vínculo que resultado ato humano livre
dos esposos e da consumação do casamento é uma realidade
irrevogável e dá origem a uma aliança garantida pela
fidelidade de Deus. Não cabe ao poder da Igreja pronunciar-se contra
esta disposição da sabedoria divina.
A Graça do Sacramento do Matrimônio
"Em seu estado de vida e função, (os esposos cristãos)
têm um dom especial dentro do povo de Deus." Esta graça
própria do sacramento do Matrimônio se destina a aperfeiçoar
o amor dos cônjuges, a fortificar sua unidade indissolúvel.
Por esta graça "eles se ajudam mutuamente a santificar-se
na vida conjugal, como também na aceitação e educação
dos filhos".
Cristo é a fonte desta graça. "Como outrora Deus tomou
a iniciativa do pacto de amor e fidelidade com seu povo, assim agora o
Salvador dos homens, Esposo da Igreja, vem ao encontro dos cônjuges
cristãos pelo sacramento do Matrimônio." Permanece com
eles, concede-lhes a força de segui-lo levando sua cruz e de levantar-se
depois da queda, perdoar-se mutuamente, carregar o fardo uns dos outros,
"submeter-se uns aos outros no temor de Cristo" (Ef 5,21) e
amar-se com um amor sobrenatural, delicado e fecundo. Nas alegrias de
seu amor e de sua vida familiar, Ele lhes dá, aqui na terra, um
antegozo do festim de núpcias do Cordeiro.
Onde poderei haurir a força para descrever satisfatoriamente a
felicidade do Matrimônio administrado pela Igreja, confirmado pela
doação mútua, selado pela bênção?
Os anjos o proclamam, o Pai celeste o ratifica... O casal ideal não
é o de dois cristãos unidos por uma única esperança,
um único desejo, uma única disciplina, o mesmo serviço?
Ambos filhos de um mesmo Pai, servos de um mesmo Senhor. Nada pode separá-los,
nem no espírito nem na carne; ao contrário, eles são
verdadeiramente dois numa só carne. Onde a carne é uma só,
um também é o espírito.
Os bens e as exigências do amor conjugal "O amor conjugal comporta
uma totalidade na qual entram todos os componentes da pessoa apelo do
corpo e do instinto, força do sentimento e da afetividade, aspiração
do espírito e da vontade; O amor conjugal dirige-se a uma unidade
profundamente pessoal, aquela que, para além da união numa
só carne, não conduz senão a um só coração
e a uma só alma; ele exige a indissolubilidade e a fidelidade da
doação recíproca definitiva e abre-se à fecundidade.
Numa palavra, trata-se das características normais de todo amor
conjugal natural, mas com um significado novo que não só
as purifica e as consolida, mas eleva-as, a ponto de torná-las
a expressão dos valores propriamente cristãos."
A
Unidade e a Indissolubilidade do Matrimônio
O
amor dos esposos exige, por sua própria natureza, a unidade e a
indissolubilidade da comunidade de pessoas que engloba toda a sua vida:
"De modo que já não são dois, mas uma só
carne" (Mt 19,6). "Eles são chamados a crescer continuamente
nesta comunhão por meio da fidelidade cotidiana à promessa
matrimonial do dom total recíproco." Esta comunhão
humana é confirmada, purificada e aperfeiçoada pela comunhão
em Jesus Cristo, concedida pelo sacramento do Matrimônio . E aprofundada
pela vida da fé comum e pela Eucaristia recebida pelos dois.
"A unidade do Matrimônio é também claramente
confirmada pelo Senhor mediante a igual dignidade do homem e da mulher
como pessoas, a qual deve ser reconhecida no amor mútuo e perfeito."
A poligamia é contrária a essa igual dignidade e ao amor
conjugal, que é único e exclusivo.
A
Fidelidade do Amor Conjugal
O amor conjugal exige dos esposos, por sua própria natureza, uma
fidelidade inviolável. Isso é a conseqüência
do dom de si mesmos que os esposos fazem um ao outro. O amor quer ser
definitivo. Não pode ser "até nova ordem". "Esta
união íntima, doação recíproca de duas
pessoas e o bem dos filhos exigem perfeita fidelidade dos cônjuges
e sua indissolúvel unidade."
O motivo mais profundo se encontra na fidelidade de Deus à sua
aliança, de Cristo à sua Igreja. Pelo sacramento do Matrimônio,
os esposos se habilitam a representar esta fidelidade e a testemunhá-la.
Pelo sacramento, a indissolubilidade de casamento recebe um novo e mais
profundo sentido.
Pode parecer difícil e até impossível ligar-se por
toda a vida a um ser humano. Por isso é de suma importância
anunciar a Boa Nova de que Deus nos ama com um amor definitivo e irrevogável,
que os esposos participam deste amor, que Ele os apoia e mantém
e que, por meio de sua fidelidade, podem ser testemunhas do amor fiel
de Deus. Os esposos que, com a graça de Deus, dão esse testemunho,
não raro em condições bem difíceis, merecem
a gratidão e o apoio da comunidade eclesial.
Mas existem situações em que a coabitação
matrimonial se torna praticamente impossível pelas mais diversas
razões. Nestes casos, a Igreja admite a separação
física dos esposos e o fim da coabitação. Os esposos
não deixam de ser marido e mulher diante de Deus; não são
livres para contrair uma nova união. Nesta difícil situação,
a melhor solução seria, se possível, a reconciliação.
A comunidade cristã é chamada a ajudar essas pessoas a viverem
cristãmente sua situação, na fidelidade ao vínculo
de seu casamento, que continua indissolúvel.
São numerosos hoje, em muitos países, os católicos
que recorrem ao divórcio segundo as leis civis e que contraem civicamente
uma nova união. A Igreja, por fidelidade à palavra de Jesus
Cristo ("Todo aquele que repudiar sua mulher e desposar outra comete
adultério contra a primeira; e se essa repudiar seu marido e desposar
outro comete adultério": Mc 10,11-12), afirma que não
pode reconhecer como válida uma nova união, se o primeiro
casamento foi válido. Se os divorciados tornam a casar-se no civil,
ficam numa situação que contraria objetivamente a lei de
Deus. Portanto, não podem ter acesso à comunhão eucarística
enquanto perdurar esta situação. Pela mesma razão
não podem exercer certas responsabilidades eclesiais. A reconciliação
pelo sacramento da Penitência só pode ser concedida aos que
se mostram arrependidos por haver violado o sinal da aliança e
da fidelidade a Cristo e se comprometem a viver numa continência
completa.
A respeito dos cristãos que vivem nesta situação
e geralmente conservam a fé e desejam educar cristãmente
seus filhos, os sacerdotes e toda a comunidade devem dar prova de uma
solicitude atenta, a fim de não se considerarem separados da Igreja,
pois, como batizados, podem e devem participar da vida da Igreja:
Sejam exortados a ouvir a Palavra de Deus, a freqüentar o sacrifício
da missa, a perseverar na oração, a dar sua contribuição
às obras de caridade e às iniciativas da comunidade em favor
da justiça, a educar os filhos na fé cristã, a cultivar
o espírito e as obras de penitência para assim implorar,
dia a dia, a graça de Deus.
A Abertura - Fecundidade
O instituto do Matrimônio e o amor dos esposos estão, por
sua índole natural, ordenados à procriação
e à educação dos filhos, e por causa dessas coisas
(a procriação e a educação dos filhos), (o
instituto do Matrimônio e o amor dos esposos) são como que
coroados de maior glória.
Os filhos são o dom mais excelente do Matrimônio e contribuem
grandemente para o bem dos próprios pais. Deus mesmo disse: "Não
convém ao homem ficar sozinho" (Gn 2,18), e "criou de
início o homem como varão e mulher" (Mt 19,4); querendo
conferir ao homem participação especial em sua obra criadora,
abençoou o varão e a mulher dizendo: "Crescei e multiplicai-vos"
(Gn 1,28). Donde se segue que o cultivo do verdadeiro amor conjugal e
toda a estrutura da vida familiar que daí promana, sem desprezar
os outros fins do Matrimônio, tendem a dispor os cônjuges
a cooperar corajosamente como amor do Criador e do Salvador que, por intermédio
dos esposos, quer incessantemente aumentar e enriquecer sua família.
A fecundidade do amor conjugal se estende aos frutos vida moral, espiritual
e sobrenatural que os pais transmitem seus filhos pela educação.
Os pais são os principais e primeiros educadores de seus filhos.
Neste sentido, a tarefa fundamental do Matrimônio e da família
é estar a serviço da vida.
Os esposos a quem Deus não concedeu ter filhos podem, no entanto,
ter uma vida conjugal cheia de sentido, humana e cristãmente. Seu
Matrimônio pode irradiar uma fecundidade de caridade, acolhimento
e sacrifício.
A Igreja doméstica Cristo quis nascer e crescer no seio da Sagrada
Família José e Maria. A Igreja não é outra
coisa senão a "família de Deus". Desde suas origens,
o núcleo da Igreja era em geral constituído por aqueles
que, "com toda a sua casa", se tomavam cristãos. Quando
eles se convertiam, desejavam também que "toda a sua casa"
fosse salva. Essas famílias que se tomavam cristãs eram
redutos de vida cristã num mundo incrédulo.
Em nossos dias, num mundo que se tornou estranho e até hóstia
à fé, as famílias cristãs são de importância
primordial, como lares de fé viva e irradiante. Por isso, o Concílio
Vaticano II chama a família, usando uma antiga expressão,
de "Ecclesia domestica". E no seio da família que os
pais são "para os filhos, pela palavra e pelo exemplo... os
primeiros mestres da fé. E favoreçam a vocação
própria a cada qual, especialmente a vocação sagrada".
E na família que se exerce de modo privilegiado o acerdócio
batismal do pai de família, da mãe, dos filhos, de todos
os membros da família, "na recepção dos sacramentos,
na oração e ação de graças, no testemunho
de uma vida santa, na abnegação e na caridade ativa".
O lar é, assim, a primeira escola de vida cristã e "uma
escola de enriquecimento humano". E aí que se aprende a resistência
à fadiga e a alegria do trabalho, o amor fraterno, o perdão
generoso e mesmo reiterado e, sobretudo, o culto divino pela oração
e oferenda de sua vida.
Não podemos esquecer também certas pessoas que, por causa
das condições concretas em que precisam viver - muitas vezes
contra a sua vontade -, estão particularmente próximas do
coração de Jesus e merecem uma atenciosa afeição
e solicitude da Igreja e principalmente dos pastores: o grande número
de pessoas celibatárias. Muitas dessas pessoas ficam sem família
humana, muitas vezes por causa das condições de pobreza.
Há entre elas algumas que vivem essa situação no
espírito das bem-aventuranças, servindo a Deus e ao próximo
de modo exemplar. A todas elas é preciso abrir as portas dos lares,
"Igrejas domésticas", e da grande família que
é a Igreja. "Ninguém está privado da família
neste mundo: a Igreja é casa e família para todos, especialmente
para quantos 'estão cansados e oprimidos'."
Fonte: "Catecismo
da Igreja Católica"